De acordo com um levantamento da American Pregnancy Association, 80% das mulheres vivenciam uma melancolia logo após o parto

Mateus Omena Publicado em 14/05/2023, às 08h00
Antes da gravidez, muitas mulheres imaginam que a gestação e a chegada de um bebê significam apenas alegria e realização pessoal. No entanto, a frustração é uma sensação normal que faz parte dessa fase da vida, aliás, não existe maternidade perfeita.
De acordo com um levantamento da American Pregnancy Association, 80% das mulheres vivenciam uma melancolia logo após o parto.
Neste cenário, muitas mães se tornam vítimas de Depressão Pós-Parto (DPP), mas outras acabam sendo diagnosticadas com outro transtorno chamado Baby Blues. O importante é saber diferenciar cada um e identificar os sintomas para um melhor acompanhamento médico.
O Baby Blues é um breve período de tristeza profunda, medo e um sentimento de impotência, insegurança que acomete algumas mães logo após o parto - momento chamado de “puerpério”.
De acordo com um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), esse transtorno é identificado em 1 a cada 4 mães de recém-nascidos no país.
Em entrevista ao Diário de S.Paulo, a Dra Bárbara Rocha, psicóloga especializada nos cuidados da maternidade, o Baby Blues também se configura como uma instabilidade emocional que tem início 3 dias após o parto e pode durar de 2 a 3 semanas.
No entanto, se o problema persistir, pode se transformar em algo pior: “Se o quadro de instabilidade emocional se estender por mais de 45 dias, ou os sintomas ficarem mais intensos, temos a possibilidade de identificar alguma alteração mais significativa, como a depressão pós-parto”.
Por outro lado, a especialista pontua que a Depressão Pós-Parto (DPP) consiste em uma tristeza ainda mais intensa e prolongada, que pode trazer prejuízos de longo prazo não apenas à saúde mental da mãe, como também na maneira como lida com o próprio bebê.
“É algo que necessita de acompanhamento de perto, pois pode trazer consequências muito graves para a mãe e o bebê, quando negligenciado”.
Os casos de DPP têm crescido expressivamente nos últimos anos. Este cenário é ilustrado por uma pesquisa recente da Fiocruz, que apontou que a doença atinge cerca até 25% das mães no Brasil.
O Baby Blues caracteriza-se por:
Por outro lado, sintomas semelhantes podem ser notados na depressão pós-parto, além de outros, como:
Para especialistas, uma doença não quer dizer a outra, pois não necessariamente uma mãe com um ou mais desses sintomas sofre de DPP ou Baby Blues. Tudo depende da intensidade e da frequência. Por isso, é muito importante o acompanhamento médico, de perto, no pré-natal e após a gestação.
Além disso, as mães precisam muito de uma rede de apoio, principalmente durante o puerpério quando tudo é novidade e elas estão passando por mudanças emocionais drásticas. Uma boa rede de apoio, seja formada pela família ou amigos, pode identificar sintomas diferentes e reportar a um profissional que possa ajudar a mãe.
Consultada pelo Diário, a Dra. Melisse Manhães, psicóloga focada em maternidade, deixou claro que os dois transtornos ocorrem por causa da maneira como muitas mães lidam com o puerpério, pois, segundo ela, as mulheres são ensinadas desde jovens a enxergar a maternidade de uma forma romantizada.
“Na verdade, o puerpério é uma fase bem complexa e intensa, no qual a mulher, que está se tornando mãe, assume oficialmente esse papel. E são muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Independente do tipo de parto, a mulher volta para casa com dores e incômodos físicos ou emocionais. Há também a questão da amamentação, que não é tão simples como muitas pessoas acham, e também questões hormonais. Existem desafios da adaptação, principalmente com esse bebê”, detalhou a especialista.
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E reforçou: “Além da cobrança da sociedade, que vem com uma enxurrada de palpites sobre o que a mãe deve fazer e como fazer, parece que todo mundo sabe cuidar do seu filho, menos a mulher. E ela se vê obrigada a demonstrar felicidade o tempo inteiro, não pode reclamar de nada, pois ‘estará sendo ingrata, já que tem um filho com saúde’. Não é autorizada a chorar. E assim a própria mulher começa a se calar, a ficar quieta e não demonstrar suas emoções, e isso vai piorando gradualmente o seu estado emocional e psicológico”.
De acordo com a Dra Melisse, o quadro se agrava quando a mulher é julgada pela sociedade, ao invés de ser acolhida e compreendida. “A mãe passa a pensar que ela está errada em qualquer coisa, principalmente se for algo negativo, de não estar feliz o tempo todo e reprimir suas angústias. É a maior fase de vulnerabilidade da mulher para transtornos psíquicos”.
Apesar das dificuldades que podem surgir nesse período, não são todas as mulheres que estão suscetíveis a desenvolver o Baby Blues. A condição afeta em torno de 50% a 85% das pacientes, de acordo com a psicóloga.
Mesmo assim, ela ressalta que também não é fácil prever o problema e ter certeza de sua durabilidade: “Da mesma forma que o Baby Blues aparece, ele desaparece. Então, não é uma coisa simples de determinar. É como se a mãe estivesse vendo todo mundo feliz, está tudo ótimo, mas ela não consegue se sentir bem. Ela chora do nada, ela não está feliz. Às vezes ela tem a sensação que está ficando louca”.
Em relação à Depressão Pós-Parto, existem outros fatores que podem desencadeá-la, como: conflitos conjugais; eventos estressantes nos últimos meses; pouco suporte emocional e social; aborto expontênao de repetição; excesso de atividades profissionais; sensação de fracasso na amamentação; existência prévia de transtorno mental.
“É um caso que precisa ser levado a sério, pois não se trata de frescura, é uma depressão como qualquer outra. Trata-se de uma doença. Ela afeta tanto a pessoa que sofre, quanto o bebê que precisa da mãe. Na verdade, é algo que afeta a todos os envolvidos”.
Para a Dra. Bárbara Rocha, existem práticas simples que podem ajudar a evitar ou atenuar os efeitos do Baby Blues, levando em conta que se trata de uma condição de curto prazo.
“Apesar de não ser possível prevenir o baby-blues, por ser uma condição natural do corpo no pós-parto, é possível tomar algumas medidas, como: fazer acompanhamento psicológico durante a gestação, manter hábitos saudáveis de alimentação, sono e exercícios físicos, estruturar uma boa rede de apoio para dar suporte à mãe após o nascimento do bebê”, enumerou.
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Por outro lado, a psicóloga afirma que os problemas emocionais e mentais provocados na gravidez ocorrem pela maneira romantizada como as mulheres são preparadas para a maternidade. Por isso, ela recomenda uma mudança de perspectiva, de modo que a mãe e os familiares tratem a gestação e o nascimento de uma criança com responsabilidade. Além de não menosprezarem as sensações ou desafios de adaptação entre mãe e filho.
“Na nossa sociedade costumamos romantizar a maternidade. Assim, nos relatos de outras mães, nas propagandas e fotos, fantasiamos a ideia de que não existem grandes dificuldades e que todos os momentos são lindos”, disse.
“Quando nos tornamos mães, nos deparamos com uma realidade muito diferente. Além das mudanças corporais e privação de sono, passamos por profundas mudanças enquanto indivíduo, muitas vezes sendo necessário descobrirmos quem somos e o nosso lugar no mundo. Este processo pode ser difícil e doloroso”.
Em uma perspectiva semelhante, a Dra Melisse aponta que tanto para o Baby Blues e a DPP, um dos remédios mais eficazes é a empatia da família e dos amigos da mãe, para que ela não se sinta sozinha e se sinta à vontade para pedir ajuda quando necessário.
“A mãe pode ser ajudada sendo ouvida, porque as pessoas costumam a não levar a sério o que ela está falando, diminuem a dor dela”.
Mesmo assim, o passo mais importante, segundo a especialista, é a mulher não ignorar os sintomas de cada transtorno, reconhecer que tem problemas e procurar apoio.
“A mãe precisa se conhecer e perceber que algo não está bem. E que seu comportamento está fugindo do padrão de normalidade e por isso, deve procurar a ajuda de um profissional, como um psiquiatra, psicólogo e até um obstetra”, apontou.
Ao comparar o Baby Blues e a DPP, a especialista reforçou que uma doença, dependendo do grau de evolução e intensidade, pode ser mais grave que a outra. Contudo, nenhuma delas deve ser subestimada.
“No caso do Baby Blues, o tratamento mais eficaz é a mãe contar com uma rede de apoio para esse momento difícil. Essa condição jamais deve ser menosprezada, mas a DPP requer um olhar mais atento, ela tende a começar na gravidez, baseada na depressão gestacional, onde começa o transtorno. E os efeitos podem ser mais nocivos para a mãe, para sua autoestima e saúde mental, assim como sua relação com o bebê”.
A psicóloga indica também que a questão pode afetar também o pai, que pode ser vítima de uma depressão pós-parto masculina. Por isso, os homens também devem ficar em alerta.
“Até o homem pode sofrer de depressão pós-parto masculina, já que o pai faz parte desse contexto da parentalidade e, normalmente, ele fica mais esquecido quando a mãe enfrenta dificuldades e o recém-nascido necessita de atenção e cuidados o tempo todo”.
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