Por Kleber Carrilho

Redação Publicado em 21/05/2022, às 00h00 - Atualizado às 10h33
Por Kleber Carrilho
Sobre adversários, aliados, casamentos e conselhos de Ulysses Guimarães
Nesta semana, Lula se casou com a socióloga Rosângela da Silva. E uma das imagens mais importantes do evento, feita pelo fotógrafo oficial do ex-presidente, é a que tem os noivos com o casal Alckmin. Geraldo e Maria Lúcia estão lá, sorridentes, festejando a união.
Esta é uma grande imagem porque fala de política, que é exatamente a arte de juntar gente e administrar demandas. Afinal, se a imagem apresenta dois antigos adversários juntos, que inclusive disputaram a Presidência da República no segundo turno de 2006, ela mostra que eles nunca foram inimigos. E aí está algo a ser observado: a diferença entre adversário e inimigo.
Porque assim é a vida política: adversários podem se tornar aliados, e vice-versa. Porém, para que isso ocorra, todos devem pensar que política é só política. Não dá para colocar na frente paixões intransponíveis, diferenças irreconciliáveis, ameaças à vida ou à dignidade. Ou seja, na política, não dá para ter inimigos.
Como dizia o grande Ulysses Guimarães, na política, em geral, e especialmente no poder, se você não pode fazer um amigo, não faça um inimigo. O inimigo guarda o ódio na geladeira. O inimigo, numa eleição, amanhece na boca da urna dizendo que a mãe do candidato não é honesta.
Também segundo ele, em política, nunca se deve proferir palavras irreparáveis, irretratáveis. E, para isso, recordava um conselho do presidente argentino Juan Domingo Perón: “Em política, fale muito sobre coisas, pouco sobre pessoas e nunca sobre você”.
Quer mais uma do velho Ulysses? Você nunca deve estar tão próximo de alguém que amanhã não possa ser adversário. E nem tão distante que amanhã fique em dificuldade por ter que virar amigo.
Infelizmente, a vida política brasileira, nos últimos anos, foi invadida por gente que não conheceu Ulysses Guimarães, nem tem capacidade de ler sobre política. Não sabe o que é o embate, a argumentação, o arrefecimento pós-eleitoral. Gente que acha que tem que apontar o dedo o tempo todo, que não vê a mínima possibilidade de que, passada a disputa sobre um tema ou uma ideia, todos possam sentar-se à mesma mesa.
Então, mesmo que tenhamos (como eu tenho) críticas a Geraldo Alckmin e a Lula, este movimento entre os dois lembra que ainda é possível fazer política no Brasil, que as paixões que cegam devem ser colocadas de lado. Afinal, apesar das diferenças, eles também podem ser parecidos. A origem, o ambiente político e a formação partidária podem ter sido diferentes, mas as crenças sempre foram muito próximas.
É hora de decidir entre a política que junta e a que espalha. E tenho a tendência a acreditar que, no longo prazo, a que junta vai sair vencedora. Isso porque, da mesma forma que, ao chegar pela primeira vez na Presidência, Lula teve como vice e fiador José Alencar, empresário que foi um dos fundadores do Republicanos, partido que se posiciona claramente como conservador, vai ser nessa aliança à direita que a possibilidade de sucesso eleitoral dele volta a existir.

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