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COLUNA

O fim da Ordem Mundial: 2026 e o retorno do "cada um por si"

Tom Standage descreve uma desordem internacional onde a competição entre nações redefine a política global e a diplomacia - Imagem: Reprodução / The Economist
Tom Standage descreve uma desordem internacional onde a competição entre nações redefine a política global e a diplomacia - Imagem: Reprodução / The Economist
Marina Roveda

por Marina Roveda

Publicado em 13/11/2025, às 08h20


A nova capa da The Economist não é apenas provocativa, é um alerta. Sob o título “The World Ahead 2026”, a revista britânica retrata um planeta em plena reconfiguração de poder, onde as antigas alianças se dissolvem e cada país passa a agir conforme o próprio interesse, sem árbitros globais confiáveis.

O editor Tom Standage chama o fenômeno de “era do caos”, mas o que se desenha, na verdade, é algo mais sofisticado: uma nova desordem internacional, multipolar, fragmentada e essencialmente pragmática. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, não há uma força clara guiando o sistema global. Há apenas nações competindo por autonomia, território, tecnologia e influência, um mundo sem centro, sem freios e sem consenso.

A capa da Economist traduz visualmente essa virada. O planeta aparece como uma bola sendo chutada por um jogador de camisa vermelha, uma alusão à Copa do Mundo de 2026, mas também uma metáfora do planeta como brinquedo nas mãos das potências. O vermelho, cor central na arte, remete não só à disputa esportiva, mas também ao republicanismo de Donald Trump, cuja volta ao poder redefine a postura americana: menos diplomática, mais transacional.

Acima do globo, um bolo com o número 250 marca a coincidência simbólica de dois aniversários: os 250 anos da independência dos Estados Unidos e os 250 anos da fundação dos Iluminados da Bavária, ambos datados de 1776. O contraste entre celebração e sombra revela o tom da capa, o mundo comemora a liberdade, mas vive a era do controle. Ao lado do bolo, um punho algemado se ergue, como se dissesse: há festa, mas também repressão; há soberania, mas também aprisionamento.

No plano político, a imagem dos lutadores de boxe, um de calção azul e outro vermelho, simboliza o embate entre democratas e republicanos, um retrato da polarização americana. Mas, segundo Standage, o duelo extrapola as fronteiras dos Estados Unidos: o mundo inteiro está dividido em tons de vermelho e azul, conservadores e progressistas, nacionalistas e globalistas, cada vez mais isolados dentro de suas próprias bolhas ideológicas.

Essa divisão explica o novo paradigma da política internacional. A Economist afirma que 2026 será o ponto de consolidação de uma ordem descentralizada, na qual os países não confiam mais em alianças coletivas, preferindo pactos bilaterais, efêmeros e puramente econômicos. Em outras palavras, o mundo volta a ser um mercado, não uma comunidade.

É nessa lógica que Trump se encaixa como peça central. O ex-presidente aparece na capa não em retrato, mas em conceito, como o “dono do jogo”. A frase que acompanha a edição, "This is Donald Trump's world; we just live in it" ("Este é o mundo de Donald Trump; nós apenas vivemos nele"), resume a ideia: os Estados Unidos abandonam o papel de árbitro global e passam a atuar como uma corporação geopolítica, negociando interesses em vez de liderar valores.

Essa guinada não é isolada. A revista observa que China, Rússia, Turquia, Índia e Arábia Saudita seguem o mesmo caminho: cada potência constrói sua própria esfera de influência e age de forma autônoma, sem esperar autorização de ninguém. A China, por exemplo, continua expandindo seu domínio econômico sobre o Sul Global, da África à América Latina, enquanto se mantém distante de conflitos diretos. Já a Rússia, após anos de sanções, ajusta sua economia de guerra e consolida uma aliança tática com Pequim. Os EUA, por sua vez, buscam “grandeza doméstica”, mesmo que isso signifique abdicar do papel de liderança internacional.

O resultado é o que a Economist chama de mundo multipolar e imprevisível, em que paz e conflito coexistem. Cada nação define as próprias regras e reage de forma instintiva. O comércio global é fragmentado, as cadeias de produção se regionalizam, e a diplomacia cede lugar a uma espécie de “economia de sobrevivência”. O dólar ainda domina, mas com rachaduras visíveis, o símbolo da moeda quebrada na capa traduz o risco de colapso do sistema financeiro ocidental e o avanço das moedas digitais estatais como ferramentas de controle.

A revista alerta: o planeta está entrando numa era em que a segurança nacional se sobrepõe à cooperação internacional. Os blocos regionais perdem coesão, as instituições, como ONU e OMC, se tornam decorativas, e as nações médias, como o Brasil, precisarão aprender a navegar sozinhas num mar sem bússola.

Nada disso significa o fim do mundo, mas o fim da previsibilidade. É o retorno do “cada um por si”, um realismo geopolítico que devolve poder aos governos, mas retira estabilidade do sistema. Na visão de Standage, o caos não é acidente, é o novo normal.

O planeta de 2026 será menos cooperativo e mais competitivo. Cada país será ao mesmo tempo sua fortaleza e sua prisão. A globalização, antes motor de integração, agora se transforma em corrida por autonomia. E, no centro de tudo, a Economist sugere um paradoxo inquietante: quanto mais o mundo busca liberdade, mais ele parece preso ao próprio medo.

O papel do Brasil nesse novo cenário

Para o Brasil, esse ambiente é tanto desafio quanto oportunidade. Como potência média e voz ativa do Sul Global, o país tem espaço para atuar como ponte entre blocos rivais, dialogando com os Estados Unidos sem romper com a China, mantendo comércio com a Europa e, ao mesmo tempo, consolidando alianças regionais na América do Sul. Mas esse equilíbrio exigirá uma política externa de altíssimo pragmatismo, livre de alinhamentos automáticos e guiada pelo princípio da autonomia estratégica. Num mundo em que cada país fala por si, o Brasil precisará aprender a falar mais alto, e por conta própria.


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