Os detidos afirmaram que as igrejas bancavam estadia e ônibus

Nathalia Jesus Publicado em 15/03/2023, às 08h53
Evangélicos detidos pelos atos extremistas do dia 8 de janeiro, em depoimento para a Polícia Federal, revelaram que igrejas de diversas regiões do Brasil pagaram ônibus e a organização de caravanas até Brasília.
Com exclusividade, o UOL obteve acesso à cerca de 1.000 depoimentos sigilosos prestados à PF por alguns presos no acampamento antidemocrático montado em frente ao quartel-general do Exército, logo após o 8 de janeiro.
A questão que envolve o financiamento dos atos antidemocráticos por parte das igrejas evangélicas foi citada por pelo menos cinco depoentes. Outros presos, no entanto, relataram a participação de empresários no financiamento e até mesmo doações para que pudessem participar dos atos.
Entretanto, os depoentes evitaram dar muitos detalhes sobre esses financiadores.
Sirlei Siqueira, moradora de Sinop, no Mato Grosso, afirmou que viajou para Brasília em uma "excursão da Igreja Presbiteriana Renovada", mas não deu mais detalhes sobre o financiador. Também morador de Sinop, Jamil Vanderlino disse que viajou em um "ônibus financiado por igreja evangélica".
Questionado sobre os financiadores, Jamil se recusou a dar mais detalhes. "Fará uso de seu direito de permanecer calado", registrou o agente da Polícia Federal no documento. A Igreja Presbiteriana Renovada de Sinop disse que os pastores não participaram do ato do dia 8 de janeiro e afirmou desconhecer quem teria organizado a excursão.
Um aposentado de Uberlândia, em Minas Gerais, afirmou que recebeu a oferta da viagem de um pastor quando participava de manifestações em um quartel da cidade, mas alegou não se lembrar quem era o financiador nem a denominação a qual o pastor fazia parte.
"Informa que teria conversado com um pastor, que não se recorda o nome, que teria conhecido próximo ao Quartel em Uberlândia, e ele informou que o interrogado poderia ir no ônibus de graça para Brasília", disse Edinilson Felizardo da Silva. Questionado, ele respondeu que nenhuma outra vantagem financeira lhe foi oferecida, somente a passagem.
Ademir Almeida da Silva, morador de Maceió também detido na operação ordenada por Alexandre de Moraes, alegou que tinha uma remuneração mensal de R$ 400 e citou o nome de um pastor da Igreja Batista, Adiel Brandão de Almeida, como um dos financiadores da sua viagem.
Por sua vez, Adiel afirmou que viajou para Brasília e "cooperou" com ademir durante a estadia pois reparou que ele estava com pouco dinheiro, mas disse que não houve relação da igreja com as despesas.
"Ao longo da viagem, a gente foi cooperando com ele. Ele pagou algumas coisas, ele estava com pouco dinheiro, alguns lanches nós rateamos, outros lanches não. Além disso, nós não tivemos participação em nada disso aí", afirmou à coluna. "Isso é financiar a ida de alguém? Não é. Financiar é quando você está dizendo que todas as despesas, transporte, comida, almoço e janta eram por minha conta, aí seria financiar. E mesmo que alguém fosse financiar, não é da conta de ninguém não", alegou Almeida.
Já uma moradora de Xinguara, no Pará, afirmou ser frequentadora da igreja Assembleia de Deus e disse que integrantes da denominação religiosa participaram dos atos e viajaram para Brasília junto com ela. No entanto, também não deu detalhes sobre os financiadores da viagem.
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