
por Kleber Carrilho
Publicado em 21/10/2023, às 06h58 - Atualizado às 10h58
A relação entre política e religião é complexa e tem sido uma característica marcante da nossa História. E por que estamos falando sobre isso? Porque nos últimos dias, principalmente devido ao conflito entre israelenses e palestinos, o assunto foi muito debatido.
É importante entender que, por séculos, esses dois campos estiveram totalmente entrelaçados, criando sociedades, sistemas de governo e, é claro, conflitos. Somente em tempos mais recentes, a separação entre política e religião começou a ser pensada, principalmente no que chamamos de democracia liberal.
E essa relação se deve a um aspecto essencial: líderes políticos frequentemente se autoproclamavam (e ainda se autoproclamam) como representantes de divindades, ou então buscavam (e buscam) o apoio das instituições religiosas para consolidar seu poder.
A união entre tronos e altares, portanto, foi vista como uma maneira de garantir a estabilidade e a legitimidade. E isso frequentemente resultava em uma união de interesses e em um sistema onde a religião era usada para justificar decisões políticas e vice-versa.
Porém, na medida em que as democracias liberais começaram a se consolidar, a ênfase na separação entre a igreja e o estado se tornou fundamental. Isso se deveu em parte à necessidade de garantir a liberdade religiosa e o pluralismo nas sociedades cada vez mais diversificadas.
O Iluminismo, se você se lembra dele da época da escola, desempenhou um papel essencial, promovendo a razão e a ciência como guias para a tomada de decisões políticas, em vez da autoridade religiosa. O resultado foi a distinção entre instituições políticas e religiosas, como vemos em muitos países democráticos.
Apesar dos avanços, essa divisão não é absoluta e persiste em muitas partes do mundo. Em alguns contextos, como o Brasil, os Estados Unidos, o Oriente Médio, o que inclui conflito entre palestinos e israelenses, a mistura de política e religião continua a desempenhar um papel significativo.
No Brasil, por exemplo, a influência da bancada evangélica nas decisões políticas é notável. Questões como o aborto e a igualdade de gênero frequentemente são debatidas no âmbito político, refletindo visões religiosas. Nos Estados Unidos, a política frequentemente se aproxima da religião, especialmente entre grupos conservadores. A oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e o debate sobre o ensino do criacionismo nas escolas públicas são exemplos disso.
Voltando ao conflito entre palestinos e israelenses, as questões religiosas desempenham um papel importante na reivindicação de território, com ambas as partes usando argumentos divinos.
E, é também claro que, em contextos onde a política e a religião se misturam, a tendência de associar o adversário com o mal, o demônio ou o diabo muitas vezes substitui a construção de argumentos sólidos e a negociação construtiva. Essa demonização do adversário não apenas prejudica o diálogo político, mas também leva à polarização e à desumanização.
E o que podemos fazer? Além de refletir sobre o que acontece lá, podemos tentar olhar para nós mesmos. Será que queríamos viver em contextos em que crenças diferentes das nossas têm poder político? Ou preferimos que todos tenham liberdade, inclusive o nosso grupo, para crer no que quiser, sem riscos?
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