
por Kleber Carrilho
Publicado em 27/05/2023, às 07h37
Realpolitik é um termo em alemão que junta, como você deve saber, as palavras real (realidade) e política, e é usado para se referir à necessidade, no ambiente político, de ter pragmatismo na proposição de projetos e de caminhos para alcançar os resultados esperados. Afinal, embora os aspectos ideológicos possam ser importantes na política tendo um papel de utopia, não é possível mudar a realidade sem compreendê-la e trabalhar de forma consciente das limitações que se impõem.
A expressão também é usada para dizer que um determinado grupo político toma posições antiéticas ou amorais, com o único intuito de se manter no poder, em geral lembrando como Nicolau Maquiavel, no seu famoso O Príncipe, tratava a forma como quem tem poder deve agir para deixar os adversários e inimigos distantes.
Mais tarde, Max Weber deu uma cara mais racional a tudo isso, tratando esse desvio do padrão moral como a ética da responsabilidade, que deve ser diferente da ética da pessoa comum, pois leva em conta as necessidades de longo prazo dos grupos sociais e das instituições políticas, ou seja, em última instância, do próprio Estado.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso repetia muito que “política é a arte do possível”, uma frase atribuída originalmente a Otto von Bismarck, um dos maiores responsáveis pela unificação alemã. Na verdade, ao falar da limitação do que é possível fazer nos cargos, também há uma tentativa de dizer que a finalidade de manter o poder permite que (quase) qualquer atitude se torne válida.
E por que estou falando de tudo isso? Porque, atualmente, o presidente Lula pode dizer que faz tudo o que tem feito (ou permite fazer), inclusive uma relação complexa e confusa com o Centrão, para evitar que um mal maior ocorra. E, para ele e os defensores da democracia liberal, o mal maior é Bolsonaro e o bolsonarismo.
Nas últimas semanas, a aliança dele com Marina Silva sofreu um ataque, nessa tentativa de manter a governabilidade. Porém, isso pode trazer um risco ainda maior, porque a aliança eleitoral entre os dois mostrava um comprometimento que, se abandonado, pode resultar em perda de apoio em diversos espaços. Depois de todo o stress que houve durante o seu segundo mandato de Lula, quando Dilma Rousseff atropelou a ministra do Meio Ambiente dentro do governo e também em eleições posteriores, mostrar mais um abandono a Marina pode ser terrível para o futuro do país, principalmente no cenário internacional, que é tão caro ao presidente.
Enquanto isso, só para mostrar que este governo está trabalhando em “departamentos” extremamente distantes, Fernando Haddad está dando um show de compreensão do ambiente real, de realpolitik. Deixou de lado qualquer dúvida quanto ao liberalismo que sempre defendeu (eu sempre disse isso aqui), e está tendo uma longa lua de mel com o tal do mercado.
Porém, a dúvida que fica é, se na percepção dos apoiadores que tanto trabalharam para que Bolsonaro fosse derrotado, quando as práticas permitidas pelo atual governo levam a resultados muito próximos aos do que o ex-presidente perseguia, como no caso das políticas ambientais e da demarcação de terras dos povos originários, como Lula pode convencê-los de que vale a pena lutar para manter o poder, se esse poder pode ir contra eles mesmos e o que acreditam?
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