
por Kleber Carrilho
Publicado em 13/05/2023, às 07h49
A morte da Rita Lee me trouxe muitas lembranças. Uma delas é interessante, e me veio à memória na hora em que fiquei sabendo: meu pai sempre contava uma história de que tinha conhecido a Rita Lee quando jovem. Como ele era um pouco mais velho do que ela, e realmente frequentava a Vila Mariana naquele tempo, pode ser que seja verdade. E por que pode ser? Porque ele sempre contava a história de forma diferente, o que fazia a gente duvidar um pouco, mas isso não vem ao caso. Neste momento, vem ao caso que a morte da Rita Lee me fez pensar também na própria ideia de morte, ou melhor, das mortes.
Isso mesmo: desde que li isso em algum canto, eu sou daqueles que acreditam em pelo menos três mortes. É mais ou menos assim: as pessoas têm a primeira morte quando deixam de respirar, a tal da morte biológica, e não são mais ouvidas, cheiradas, degustadas (coisa de Rita Lee, não?). Depois, tem todo o ritual que prepara para a segunda morte, quando as pessoas são sepultadas ou cremadas, e não podem ser mais vistas nem tocadas (para completar os cinco sentidos).
Mas a mais interessante mesmo é a terceira morte, aquela que acontece quando a pessoa é lembrada pela última vez. É uma morte incerta, sem data, sem espetáculo. A memória vai terminando devagarinho, quando os amigos, os filhos, os netos deixam de existir e, assim, deixam de lembrar.
É por isso que o ser humano tenta sempre a imortalidade: o legado nos negócios, na política e na arte. Tudo é construído para que, cada um da sua forma, tenha um pouco (ou muito) do que a gente pode chamar de imortalidade.
Afinal, quando Rita Leevai ser esquecida? E será que ela vai ser esquecida? Quando a última pessoa vai se lembrar dela, ouvir uma música, cantar junto o final e decretar que foi a última vez que alguém pensou nela?
Talvez isso não ocorra, e ela seja lembrada, ouvida, cantada até o último momento em que a humanidade estiver por aqui, quando alguma pandemia, o aquecimento global, um meteoro ou simplesmente um realinhamento do planeta decretar a morte de todo o mundo, com nossas memórias, discos, músicas, plataformas de streaming, tudo!
Se esse tempo estiver chegando, talvez eu queira passar pelo momento final ouvindo Rita Lee, quando, ao contrário dos outros, vamos ter as três mortes ao mesmo tempo: deixaremos de ser lembrados na mesma hora em que deixarmos de respirar e ser vistos.
Então, “na hora H, quando a bomba estourar, quero ver da janela. E entrar no pacote de camarote”.
Viva Santa Rita de Sampa!
PS: Sim, antes que você me pergunte, o título deste texto é uma referência à grande obra do Jorge Amado, A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água.
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