
Marcelo Emerson Publicado em 25/08/2022, às 08h48
O caso do menino que telefonou para a polícia porque sentia fome deve ser lembrado sempre, não apenas por solidariedade à angústia que sofria, mas pelo alerta que representa numa sociedade em que famílias inteiras ainda padecem com a carência do que é mais básico e essencial à vida humana digna, inclusive a falta de alimentos.
Para quem não acompanhou a notícia, vale lembrar que, na terça-feira (02/08), um menino de 11 anos de idade ligou para a polícia pedindo socorro porque não tinha o que comer, enquanto sua mãe chorava e seus irmão sofriam de fome.
Os policiais foram até o local no município de Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte, para checar se era o caso de maus-tratos. Não era. Era fome causada por um sistema que precisa produzir pobreza para funcionar. O tenente se comoveu e se mobilizou para ajudar.
Houve uma rápida mobilização dos policiais junto ao supermercado mais próximo e logo conseguiram uma cesta básica para alimentar o menino, sua mãe e mais cinco crianças. Houve mais doações da vizinhança nos dias seguintes.
É sintomático que o menino tenha ligado para a polícia e não para uma igreja neopentecostal, para um partido político, para um fazendeiro ou empresário. Talvez, na pureza do coração infantil ele já tinha a certeza que daí não sairia nada. Ele confiou na polícia, na segurança do Estado. Apesar disso, vale notar que não foi o Estado que salvou o menino, já que os policiais tiraram dinheiro dos próprios bolsos para fazer um rateio e conseguir uma cesta básica. Embora a mãe do garoto recebesse auxílio de programas sociais, os valores recebidos não davam conta das despesas básicas.
Desta vez o menino de Santa Luzia, conseguiu salvar a si e à sua família com o apoio da Polícia Militar, mas quantos meninos os policiais de todo o Brasil terão que ajudar no sistema neoliberal que depende da existência dos miseráveis para funcionar? O caso do menino de Santa Luzia deveria gerar em todos nós a seguinte reflexão: se tudo e todos representam um valor econômico no sistema neoliberal e, assim, as pessoas valem na proporção da riqueza que conseguem ajuntar, quanto vale um ser humano que só tem a vida?
Para os policiais que atenderam aquela ocorrência, a vida do menino, da sua mãe e dos seus irmãos têm muito valor, mas, e para o seu político-candidato, qual o valor da vida humana?

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