Principal motivo é famílias não conversarem sobre desejo de doar

Gabriela Nogueira Publicado em 25/09/2025, às 20h15
No dia 25 de setembro, o Ministério da Saúde deu início a uma nova campanha em São Paulo com o intuito de promover a doação de órgãos no Brasil. O foco principal da iniciativa é abordar a resistência que ainda persiste entre as famílias brasileiras, com 45% delas recusando-se a autorizar doações.
Durante o evento realizado no Hospital do Rim, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, enfatizou que a comunicação é vital para garantir a segurança e a credibilidade do Programa Nacional de Transplantes, reconhecido internacionalmente. "Quando um profissional de saúde se aproxima para discutir a possibilidade de doação, é crucial que as famílias saibam que estão lidando com um programa seguro e respeitado globalmente", afirmou Padilha.
O ministro reiterou que o sistema brasileiro é rigorosamente controlado e livre de práticas ilícitas como tráfico de órgãos. Ele destacou os avanços obtidos ao longo dos anos para estabelecer um programa sólido, proporcionando às famílias a confiança necessária para realizar essa decisão tão importante.
Dados anteriores já indicavam que a recusa familiar é o principal obstáculo à doação de órgãos. De acordo com José Medina Pestana, superintendente do Hospital do Rim, a insegurança das famílias muitas vezes surge da falta de clareza sobre a vontade do falecido em relação à doação. "A cultura brasileira já compreende bem o conceito de morte encefálica, e não há barreiras religiosas significativas; por exemplo, mesmo Testemunhas de Jeová podem ser doadoras", comentou.
Padilha ressaltou que é fundamental que as pessoas informem suas famílias sobre suas intenções de serem doadoras, pois isso pode evitar negativas em momentos críticos. "A ausência dessa comunicação prévia é o motivo mais comum para que as famílias se recusem", acrescentou.
No evento, foi também assinada uma portaria que institui pela primeira vez uma Política Nacional de Doação e Transplantes desde a criação do sistema em 1997. Essa nova política estabelece diretrizes claras para o Sistema Nacional de Transplantes, priorizando ética, transparência e gratuidade no acesso pelo SUS.
Entre as inovações desta política está a regulamentação dos transplantes de intestino delgado e multivisceral dentro do SUS, permitindo que pacientes com falência intestinal recebam atendimento completo na rede pública. Outra adição significativa é a utilização da membrana amniótica para tratamento de queimaduras, especialmente em crianças, promovendo uma cicatrização mais eficiente e minimizando dores.
De acordo com Padilha, essa nova política é um marco para o Sistema Nacional de Transplantes. A redistribuição eficiente dos órgãos entre regiões busca aumentar o número de transplantes realizados em áreas onde esses procedimentos são menos frequentes, garantindo equidade no acesso ao tratamento.
Durante o lançamento também foi apresentado o Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Prodot), que visa valorizar as equipes hospitalares responsáveis pela identificação de potenciais doadores, oferecendo incentivos financeiros baseados no desempenho.
Atualmente, o Brasil ocupa a terceira posição mundial em transplantes absolutos, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, mas lidera em transplantes realizados por um sistema público. No primeiro semestre deste ano, foram registrados 14.900 transplantes – um recorde histórico. Contudo, esse número poderia ser ainda maior se não houvesse uma recusa tão significativa por parte das famílias.
Com mais de 80 mil pessoas na lista de espera por um transplante no Brasil, o Ministério da Saúde enfatiza a importância da conscientização familiar sobre doação. A campanha com o slogan "Doação de Órgãos: Você diz sim, o Brasil inteiro agradece" será veiculada neste mês de setembro em comemoração ao Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado no dia 27.
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