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Contrabando

Canetas emagrecedoras superam cigarros e viram segundo item mais apreendido na fronteira com o Paraguai

Demanda disparada por medicamentos para perda de peso alimenta mercado clandestino que já teria movimentado R$ 10 bilhões em seis meses, atrás apenas de smartphones nas apreensões da Receita Federal em Foz do Iguaçu

O comércio ilegal de canetas emagrecedoras já movimentou cerca de R$ 10 bilhões, refletindo a crescente demanda por emagrecimento rápido - Imagem: Reprodução
O comércio ilegal de canetas emagrecedoras já movimentou cerca de R$ 10 bilhões, refletindo a crescente demanda por emagrecimento rápido - Imagem: Reprodução

Letícia Sales Publicado em 13/07/2026, às 12h29


O contrabando de canetas emagrecedoras deixou de ser um problema pontual para se tornar um dos principais focos de atenção da fiscalização na fronteira entre Brasil e Paraguai. Em apenas dois anos, os medicamentos saltaram de uma posição irrelevante nas estatísticas para o segundo lugar entre os produtos mais apreendidos pela Receita Federal na região de Foz do Iguaçu (PR), superando os cigarros e ficando atrás somente dos smartphones.

De novidade a alvo prioritário

Até 2024, as canetas para emagrecer nem figuravam entre os dez itens mais apreendidos na alfândega da cidade. A mudança de cenário, segundo autoridades, reflete a explosão de um mercado clandestino que hoje movimenta bilhões de reais e expõe as fragilidades da fiscalização sanitária nas fronteiras do país.

Esconderijos improvisados

Para driblar a fiscalização, os contrabandistas recorrem a métodos cada vez mais elaborados. As ampolas e canetas são escondidas em fundos falsos de veículos, dentro de motores e escapamentos, misturadas a cargas de alimentos em caminhões e até presas ao corpo de passageiros que atravessam a fronteira.

Recorde histórico de apreensão

O tamanho do problema ficou evidente numa operação da Polícia Rodoviária Federal que resultou na maior apreensão de canetas emagrecedoras já registrada no país: mais de 30 mil unidades foram localizadas escondidas em um caminhão que saiu de Foz do Iguaçu com destino a São Paulo. O volume representa cinco vezes o recorde anterior, de cerca de 6 mil unidades apreendidas em um único veículo. A carga reunia diferentes medicamentos, incluindo substâncias sem registro no Brasil e versões vendidas ilegalmente como alternativas às marcas mais conhecidas.

Um mercado de R$ 10 bilhões

O crescimento das apreensões acompanha a demanda cada vez maior por medicamentos para emagrecer, turbinada pelas redes sociais e pela busca por resultados rápidos. Autoridades estimam que o comércio ilegal já tenha movimentado cerca de R$ 10 bilhões em apenas seis meses.

A maior parte dos produtos chega ao Brasil vinda do Paraguai. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nenhuma caneta emagrecedora fabricada no país vizinho tem registro para venda em território brasileiro — o que significa que esses medicamentos nunca passaram por avaliação de qualidade, segurança ou eficácia. Vender, divulgar ou importar esses produtos sem registro é crime.

A rota internacional das substâncias

As investigações apontam que boa parte das substâncias utilizadas nas canetas ilegais vem originalmente da China e da Índia. Algumas remessas já chegam ao Paraguai embaladas; outras seguem a granel e só recebem rótulos em território paraguaio, antes de serem distribuídas para Brasil e Argentina.

As forças de segurança também têm apreendido com frequência apenas embalagens, seringas e acessórios usados para montar os produtos — um indício de que existem esquemas de adulteração e reenvase para ampliar os lucros dos criminosos.

O contrabando não se limita às fronteiras terrestres. Nos últimos meses, a Receita Federal apreendeu uma tonelada de medicamentos emagrecedores no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), em cargas vindas da China. Fábricas clandestinas do produto também foram desmanteladas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Alagoas.

Riscos à saúde pública

Para especialistas, o avanço do contrabando representa um desafio tanto para a fiscalização quanto para a saúde da população. Como os produtos entram no país sem qualquer controle sanitário, não há garantias sobre a origem das substâncias nem sobre as condições de fabricação, armazenamento e transporte. Em alguns casos, chegam a ser encontrados no mercado clandestino medicamentos ainda experimentais, sem aprovação de agências reguladoras.

A Anvisa recomenda que pacientes utilizem exclusivamente medicamentos registrados no Brasil, adquiridos em estabelecimentos autorizados e sempre com acompanhamento médico. Além dos riscos à saúde, a importação ilegal de medicamentos está entre os crimes mais graves previstos na legislação brasileira, com penas que podem chegar a 15 anos de prisão.


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