Estados investem menos de R$ 3 milhões por ano em itens menstruais enquanto mulheres improvisam para conter o fluxo nas prisões

Gabriela Nogueira Publicado em 13/01/2026, às 14h10
Mesmo com o avanço do debate público sobre dignidade menstrual, a realidade dentro dos presídios femininos brasileiros segue marcada pela escassez. Mulheres privadas de liberdade relatam que a falta de absorventes ainda as obriga a recorrer a improvisos precários durante o período menstrual, como pedaços de colchão, panos velhos e restos de tecido.
Dados levantados por organizações que acompanham o sistema prisional mostram que os estados brasileiros gastam menos de R$ 3 milhões por ano com a compra de absorventes para unidades femininas. O valor representa uma parcela quase insignificante do orçamento destinado ao sistema carcerário, que soma bilhões de reais anualmente.
Na prática, a distribuição dos produtos varia de estado para estado e não segue um padrão nacional. Cada secretaria define suas próprias regras, que muitas vezes não são cumpridas de forma regular. Ex-detentas e pesquisadoras apontam que a quantidade entregue costuma ser insuficiente para atravessar um ciclo menstrual completo, especialmente para quem não recebe visitas e não consegue complementar os itens de higiene.
Relatos colhidos por entidades sociais descrevem uma rotina de restrições. Mulheres contam que, ao longo do mês, precisam escolher entre usar os poucos absorventes disponíveis apenas nos dias de maior fluxo ou improvisar alternativas nos demais. O impacto não é apenas físico, mas também psicológico, levando muitas a se isolar, evitar áreas comuns e lidar com constrangimento constante.
Especialistas alertam que a falta de acesso adequado a produtos menstruais aumenta o risco de infecções ginecológicas e agrava problemas de saúde já comuns no ambiente prisional. A situação se torna ainda mais crítica em períodos de restrição no fornecimento de água, quando manter a higiene mínima se transforma em um desafio diário.
Organizações que atuam na defesa dos direitos das mulheres presas destacam que o custo para garantir absorventes em quantidade adequada seria baixo diante do orçamento total do sistema prisional. Segundo cálculos dessas entidades, assegurar esse direito básico exigiria uma fração mínima dos recursos públicos, com impacto direto na saúde e na dignidade das detentas.
Propostas legislativas que buscam tornar obrigatória a oferta regular de absorventes e itens de higiene em presídios femininos enfrentam resistência no Congresso. Argumentos contrários costumam citar gastos públicos, apesar dos números indicarem que o investimento seria reduzido.
Enquanto o impasse persiste, mulheres encarceradas seguem lidando com uma realidade invisível para fora dos muros. Para pesquisadoras e defensoras de direitos humanos, garantir dignidade menstrual no sistema prisional não é um privilégio, mas uma medida básica de saúde pública e respeito aos direitos fundamentais.
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