O Ministério Público ainda apura se o vereador se beneficiou da prática

Nathalia Jesus Publicado em 04/05/2023, às 09h38
Jorge Luiz Fernandes, chefe de gabinete do vereador Carlos Bolsonaro desde 2018, recebeu um total de R$ 2,014 milhões somente em créditos oriundos das contas de outros seis servidores nomeados pelo filho do ex-presidente.
Essa é a prova mais concreta obtida pela equipe do Laboratório de Tecnologia de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro do Ministério Público do RJ (MP-RJ). Os dados foram levantados pela 3° Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada, na investigação sobre suspeita de rachadinha no gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal.
O documento também mostrou que Jorge Luiz usou contas pessoais para pagar despesas do filho "zero dois" do ex-presidente. Em um pedido de investigação complementar ao Laboratório de Lavagem, a 3° Promotoria agora quer saber se esses pagamentos eram regulares ou casuais. Caso sejam regulares, ficará comprovado que o vereador se beneficiou diretamento do desvio do salário de seus funcionários.
O laudo já produzido é suficiente para imputar o crime de peculato ao chefe de Gabinete. Obtido pelo O GLOBO, o documento constatou que, entre 2009 e 2018, Fernandes recebeu créditos dos seguintes funcionários:
Fernandes é casado com uma das depositantes, Regina Célia, e é cunhado de Carlos Alberto Sobral Franco, que foi lotado no gabinete de Jair Bolsonaro quando o ex-presidente era deputado federal. Visto por funcionários da Câmara como um segundo pai para Carlos, que frequenta a casa do chefe de Gabinete, Fernandes, também conhecido como Jorge Sapão, trabalha no gabinete do “zero dois” desde o primeiro mandato, em 2001.
A investigação do MP-RJ começou depois de uma reportagem publicada pela revista Época, em junho de 2019, que mostrou que sete parentes de Ana Cristina Valle, ex-mulher do então presidente da República e ex-madrasta de Carlos, foram empregados no gabinete do parlamentar, mas não compareciam ao trabalho.
Os promotores apuram ainda se os funcionários devolviam parte de seus salarios ou o valor integral para Carlos Bolsonaro, prática que ficou conhecida como "rachadinha". Quatro dos sete servidores ouvidos pela Época em 2019 admitiram que não trabalhavam no gabinete mesmo sendo nomeados e com salários em dia.
Um dos principais alvos da investigação é a situação de Marta Valle — professora de educação infantil e cunhada de Ana Cristina Valle. Moradora de Juiz de Fora, em Minas Gerais, ela passou sete anos e quatro meses lotada no gabinete, entre novembro de 2001 e março de 2009. Na ocasião, ela afirmou que nunca trabalhou para Carlos: “Não fui eu, não. A família de meu marido, que é Valle, que trabalhou”.
O salário bruto de Marta era de R$ 9,6 mil, e, com os auxílios, chegava a R$ 17 mil. Segundo a Câmara de Vereadores, ela não teve crachá como assessora. De acordo com o laudo do Laboratório, Marta fez, entre junho de 2005 e março de 2009, um total de R$ 364 mil em saques com cartão logo após receber os seus proventos.
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