
por Kleber Carrilho
Publicado em 26/04/2025, às 08h13
A morte do Papa Francisco não marca apenas o fim de um pontificado. Ela representa o encerramento de uma era de transformação dentro de uma das instituições mais antigas e adaptáveis da humanidade: a Igreja Católica. Como primeiro papa latino-americano e primeiro jesuíta a ocupar o cargo, o argentino Jorge Mario Bergoglio não se contentou em repetir os gestos e fórmulas do passado. Ele governou como líder espiritual e principalmente como líder político. E talvez por isso seu legado seja tão difícil de classificar.
Francisco vai ser lembrado por sua insistência em uma atuação voltada para os pobres, os migrantes, os marginalizados. E foi essa disposição de politizar o papado, no melhor sentido do termo, que o transformou em um papa de exceção. Em um tempo em que muitos líderes se escondem atrás de protocolos ou neutralidades convenientes, Bergoglio escolheu se posicionar. Condenou o fechamento de fronteiras, denunciou a destruição ambiental, criticou o neoliberalismo e a indiferença diante da desigualdade. Por tudo isso, foi chamado de “comunista” por setores mais conservadores, mas também de “lento” por parte da ala progressista.
A verdade é que ele não agradou a ninguém completamente, e isso talvez diga muito sobre lideanças corajosas.
Do ponto de vista institucional, enfrentou resistências internas na Cúria, onde tentou promover reformas administrativas e morais. Simplificou costumes, recusou luxos, morou em um apartamento de hóspedes, e usava sapatos simples, ao contrário dos antecessores. Além da estética da humildade, Bergoglio trouxe a tentativa de devolver à Igreja uma presença real no mundo contemporâneo, e não apenas um lugar no imaginário.
Muitos vão lembrar dele também por documentos como a Laudato Si, uma das mais importantes encíclicas, onde defende que a crise ambiental é também uma crise moral e espiritual. Outros vão lembrar dele por gestos simbólicos: o beijo em pés de refugiados, os encontros com lideranças de outras religiões, os pedidos públicos de perdão pelos erros da própria Igreja.
Mas talvez o maior ensinamento de Francisco tenha sido sobre a forma de liderar. Ele mostrou que, antes de tudo, é preciso ouvir. E depois, agir com coragem, mesmo quando não se tem garantias de que vai dar certo.
A Igreja agora entra em um novo momento, pressionada por dentro e por fora. O sucessor de Francisco será escolhido para encarar um mundo ainda mais dividido, onde fé, política e cultura se chocam em velocidade acelerada. Quem vier vai ter o desafio de manter viva a ideia de uma Igreja que consiga entender o mundo.
Enfim, Francisco não conseguiu mexer em fronteiras e derrubar governos, como João Paulo II, mas conseguiu fazer com que muita gente olhasse para a Igreja Católica com outros olhos, muito mais simpáticos.
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