
por Kleber Carrilho
Publicado em 01/11/2025, às 10h35
No Brasil, falar de segurança pública sempre foi um campo minado. De um lado, há quem ache que tudo é resultado de problemas sociais e que basta resolver as desigualdades para acabar com o crime. De outro, quem acredita que a única resposta possível à violência é mais violência, de preferência sem julgamento. Entre esses dois extremos, o debate quase não existe.
Atualmente, moro na Finlândia, um dos países menos violentos do mundo. E aqui é possível ver, com clareza, por que a equação é mais complexa e, ao mesmo tempo, mais lógica do que parece.
A Finlândia tem algo que falta ao Brasil: oportunidades mínimas garantidas para todos. Isso significa que, por aqui, quem comete um crime dificilmente o faz por necessidade extrema. Os que desafiam a lei são, em geral, aqueles que optaram conscientemente pelo crime, e não aqueles empurrados pela miséria ou pelo abandono.
Isso muda tudo. Porque a política de segurança pública finlandesa, ao identificar que o volume de criminosos por “necessidade” é pequeno, pode se concentrar nos que representam, de fato, uma ameaça à sociedade. E faz isso com eficiência. Aqui, a polícia é unificada. A mesma instituição que investiga atua também na prevenção e na repressão. É uma força profissionalizada, inteligente e focada em resultados.
No Brasil, seguimos o caminho inverso. O sistema é fragmentado. Temos polícias diferentes, que não se comunicam, brigam pelo protagonismo e, muitas vezes, atuam de forma desconexa. Além disso, não se investe o suficiente em inteligência e prevenção — dois pilares fundamentais para combater o crime.
E o resultado está aí. Operações como a que vimos esta semana no Rio de Janeiro vitimam não só os que desafiam a lei, mas também os que foram empurrados ao crime pela ausência do Estado. E, pior ainda, atingem inocentes, como sempre acontece quando não há estratégia, apenas força bruta.
Mas há um ponto ainda mais sensível: talvez o caos interesse a alguns. Uma parte da elite política se beneficia do medo, que paralisa a população e justifica medidas autoritárias. Outra parte, ao romantizar toda forma de violência como consequência social, também contribui para a omissão.
Falta vontade política. E talvez também falte coragem para dizer que a segurança pública é, antes de tudo, um projeto de país — que começa pela educação, passa por oportunidades e culmina em uma força policial bem treinada, com foco em inteligência e respeito aos direitos.
Kleber Carrilho é analista político, professor e pesquisador na Universidade de Helsinque, na Finlândia
Instagram | X: @KleberCarrilho
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