
Gabriela Nogueira Publicado em 18/10/2025, às 08h01
Os rumores de uma possível ação direta dos Estados Unidos contra o regime de Nicolás
Maduro voltaram a ganhar força depois do anúncio do Prêmio Nobel da Paz a María Corina
Machado, líder da oposição venezuelana. Pelo jeito, isso foi o estopim de uma movimentação
mais concreta para pressionar, isolar e eventualmente derrubar o atual regime da Venezuela.
Nos bastidores, é cada vez mais evidente que Donald Trump não descarta incentivar uma
saída interna, ou seja, uma ruptura promovida por forças locais com o respaldo explícito de
Washington. O próprio Trump teria dado sinal verde para isso, e o nome de María Corina
surge como símbolo ideal para um novo ciclo político no país vizinho. Tudo isso pode
acontecer sem que haja qualquer reação da comunidade internacional. O mundo está ocupado
demais com outras crises.
Para o Brasil, o cenário é delicado. A pior hipótese, e não é tão improvável, seria uma
intervenção direta dos EUA com a presença de tropas em solo venezuelano. Isso significaria
ter forças armadas norte-americanas na fronteira norte do Brasil, em plena Amazônia. É tudo
o que os bolsonaristas (principalmente Eduardo e Figueiredo) esperam: usar o discurso da
invasão como justificativa para intervenções e ações extremas no próprio Brasil.
Por isso, o melhor cenário possível para o país é que a transição na Venezuela, se acontecer,
ocorra mesmo de forma interna. Porque, ao contrário do que muitos pensam, o problema de
segurança não é só da Venezuela. Uma ruptura violenta e sem planejamento pode levar a uma
crise migratória ainda maior, desorganizar a fronteira e colocar o Exército brasileiro diante de
um desafio logístico e político que não está preparado para enfrentar.
E se há dúvidas quanto ao posicionamento do Brasil no cenário internacional, a reunião entre
o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o chanceler Mauro Vieira não deixou muito
claro qual é o cenário real.
Não há sinais de relação firme dos EUA com o governo Lula. Pelo contrário: até agora, as
ações concretas de Rubio são pressões sobre temas ligados ao Judiciário brasileiro, o que não
é da alçada do Executivo, mas que, para o governo Trump, parece fazer parte do jogo.
Nesse cenário, é preciso cuidado. Lula precisa equilibrar a relação com os EUA sem parecer
submisso. E, ao mesmo tempo, precisa demonstrar firmeza diante da possibilidade de
instabilidade regional. É um jogo perigoso. E não há muito espaço para erro.
O momento exige aquilo que Lula, ao longo da carreira, sempre mostrou ter: leitura de
cenário, entendimento do jogo e habilidade para negociar. Agora, essa habilidade será mais
necessária do que nunca.
Kleber Carrilho é analista político, professor e pesquisador na Universidade de Helsinque, na
Finlândia
Instagram | X: @KleberCarrilho
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