
por Kleber Carrilho
Publicado em 22/11/2025, às 08h00
Dia desses, tive uma discussão com um influencer de política sobre ele fazer ou não política. O comentário parecia simples, mas desencadeou uma daquelas conversas que mostram como a linguagem é traiçoeira, e como a política, por mais onipresente, está longe de ser simples. Teve gente que concordou comigo, teve gente que discordou, e até o próprio influencer gravou um vídeo explicando, segundo ele no contexto marxista, o que significa "fazer política". E ele tem razão em vários pontos. Mas ninguém tem a razão inteira. É aquilo: depende da lente teórica, da formação, das disputas e, claro, dos objetivos.
O problema começa pela própria língua. Em português, "político" é adjetivo e é substantivo. E "política" pode ser a arte de governar, a gestão pública, uma postura de vida, uma conversa, uma briga em família ou uma aula de ciência política. Em inglês, as coisas se organizam um pouco melhor: politician é a pessoa, political é o adjetivo, policy é a política pública e politics é o campo institucional, a disputa de poder formal. Já é confuso o suficiente, mas pelo menos as gavetas são mais claras do que para nós, onde tudo parece ser a mesma coisa até não ser.
Ainda assim, nem o inglês dá conta de tudo. Quando queremos falar da política feita dentro das instituições, chamamos de política institucional. Quando queremos falar da política voltada para resultados, usamos o termo alemão realpolitik. E quando queremos destacar a política que se move por pragmatismo, sem grandes amarras ideológicas, usamos justamente "política pragmática", expressão que no Brasil foi distorcida tantas vezes que virou quase sinônimo de oportunismo, ou corrupção.
Mas, apesar da confusão, essa discussão é essencial. Não para saber quem está certo nessa batalha semântica, mas para entender o que realmente transforma a realidade. Porque, no fim das contas, muita coisa é "político", como escrever esta coluna, comentar nas redes, participar de debates, produzir análise. Mas nem tudo é "política" no sentido institucional, aquele que exige organização, partido, voto, projeto, disputa, construção.
E é aí que a conversa ganha outro nível: se discussões públicas influenciam partidos, legisladores e políticas públicas, então talvez aquilo que é apenas "político" hoje acabe, sim, virando política amanhã. Influencers que formam opinião, mobilizam pessoas e moldam o debate não estão no Congresso, mas podem afetar diretamente o que o Congresso faz. A fronteira entre political e politics vai ficando mais porosa, e mais poderosa.
Talvez seja esse o ponto que vale guardar: discutir a política já é político, mas transformar essa discussão em ação exige algo mais. Exige estrutura, disputa, responsabilidade e coragem. Porque, se tudo é político, a política de verdade continua sendo aquela que muda a vida das pessoas. E essa, gostemos ou não, ainda acontece lá onde as instituições existem. Mesmo que cada vez mais sejam empurradas, provocadas e até (no futuro) substituídas pelas conversas que começam aqui, por exemplo.

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