
por Kleber Carrilho
Publicado em 19/07/2025, às 11h55
Na política, sorte não é tudo, mas ajuda. E, se existe um político que tem a capacidade de estar no lugar certo na hora certa, é Geraldo Alckmin. Agora, mais uma vez, ele volta ao centro da cena, como o escolhido de Lula para liderar a resposta às tarifas de Trump.
É uma missão complexa. Trump alega questões econômicas, que estão ficando claras aos poucos, mas cita, com destaque, a “injustiça” do Brasil contra Bolsonaro. Uma interferência externa grave, disfarçada de retaliação, que exige estratégia e serenidade.
E é exatamente pela complexidade que Lula escalou Alckmin. Em meio à tensão, o presidente precisa de alguém que conheça os corredores do poder, fale bem com empresários e com diplomatas, e que transmita confiabilidade — inclusive aos conservadores. Alckmin é essa figura. É ponderado, discreto, disfarça bem como técnico e, o mais importante, é visto como alguém que não ameaça. Pelo menos não o presidente.
Essa escolha também reposiciona Alckmin no debate eleitoral. Questionado como potencial vice para uma nova candidatura de Lula, ele agora ganha uma chance de se provar útil e estratégico no momento mais delicado da agenda internacional do governo. Se tiver bom resultado, pode até ampliar o espaço, seja como vice, seja como ponte com partidos do centro. Ou até mesmo como sucessor.
Esse momento de protagonismo não é novidade para ele. Em 1994, quando ninguém esperava, foi chamado por Covas para ser seu vice ao governo de São Paulo. Na época, Alckmin já tinha bagagem como deputado estadual, federal e era presidente do PSDB no estado. Era considerado discreto, confiável e articulado, o tipo de vice que soma sem competir. E, em um daqueles acasos da vida e da política, Covas adoeceu. Alckmin assumiu e iniciou uma das trajetórias mais longevas e consistentes da política nacional.
Desde então, ele já foi governador, ministro, candidato à presidência duas vezes e, quando todos apostavam que estava acabado, voltou como vice de um ex-adversário. Poucos políticos no Brasil conseguiram costurar tantos ciclos com relevância contínua. Alckmin é, acima de tudo — para usar uma palavra da moda — resiliente.
Agora, enfrenta o desafio de lidar com um presidente dos Estados Unidos que governa por impulso, que não mede consequências geopolíticas e que mistura ressentimentos pessoais com decisões de Estado. A cartada das tarifas é só o começo de uma nova era de conflitos econômicos. E cabe a Alckmin conduzir a resposta, com firmeza e diplomacia.
Em tempos de líderes emocionais e confrontos midiáticos, Alckmin representa a política que opera bem nos bastidores. E talvez, justamente por isso, continue sendo um dos personagens mais relevantes da nossa história recente.
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