Falta de uma estratégia coordenada nos EUA contrasta com o plano nacional da China para dominar a IA até 2030

por Kleber Carrilho
Publicado em 01/02/2025, às 12h05
Volto aqui a falar de Donald Trump. Afinal, esta semana, depois das primeiras ações, um debate essencial reapareceu: qual será o futuro dos Estados Unidos no cenário global, especialmente diante do avanço acelerado da China em tecnologia e inovação? Enquanto Trump reforça a retórica nacionalista e adota políticas que podem ser isolacionistas, a realidade é que o mundo multipolar já pode ter se consolidado. A crença de que os EUA podem continuar dominando ignora a crescente influência de outras potências, particularmente no campo da inteligência artificial (IA), um dos pilares da economia e da geopolítica do século 21.
Como vimos com o lançamento do DeepSeek, a China tem investido massivamente em pesquisa e desenvolvimento de IA, combinando planejamento estatal, incentivo a startups e acesso a dados em larga escala. Além da nova IA, empresas como Baidu, Tencent e Huawei não apenas desafiam o Vale do Silício, mas estão criando modelos de IA avançados que competem diretamente com tecnologias ocidentais. O governo chinês, diferentemente dos EUA, tem um plano nacional para dominar a IA até 2030. Essa ação estruturada coloca os EUA em uma posição delicada, especialmente se Washington insistir em restringir colaborações internacionais e desacelerar investimentos públicos em inovação.
A estratégia "America First" de Trump não apenas ignora essa competição, mas também impõe barreiras ao próprio avanço dos EUA. Com as restrições à imigração, o corte no número de vistos para profissionais altamente qualificados vai dificultar a atração de talentos globais em ciência e tecnologia, áreas onde os EUA historicamente lideravam.
As guerras comerciais, que podem incluir tarifas e sanções, criam desafios para cadeias produtivas fundamentais, como a fabricação de semicondutores, que dependem de insumos de diversas partes do mundo.
Além disso, há uma aparente ausência de um plano estruturado. Enquanto a China investe em uma estratégia nacional coordenada, os EUA continuam fragmentados, sem uma política robusta de incentivo à pesquisa e desenvolvimento.
Trump age como se os EUA pudessem competir sozinhos, mas a realidade é que a inovação tecnológica moderna depende de cooperação internacional. Volto a falar dos semicondutores, que precisam de fornecedores do Japão, da Coreia do Sul e de Taiwan, só para dar um exemplo. Grandes avanços científicos ocorrem por meio de parcerias entre universidades e empresas de diferentes países. O protecionismo pode ter efeito contrário: ao invés de fortalecer a economia americana, pode acelerar sua desconexão de redes globais essenciais para a competitividade.
O plano de Trump, baseado na nostalgia industrial e no protecionismo, pode desviar os EUA de áreas estratégicas como a já citada IA, computação quântica e energia renovável. Sem uma visão global e de longo prazo, a tentativa de restaurar um passado idealizado pode acelerar o declínio americano no cenário tecnológico e econômico. Se os EUA não adotarem uma estratégia equilibrada, que combine investimento massivo em inovação com parcerias estratégicas, a China continuará reduzindo a distância. E, em alguns setores, assumindo a liderança definitiva.
O mundo de hoje não é mais aquele que Trump descreve nos discursos. O desafio para os EUA é entender que, em um ambiente hiperconectado, unilateralismo pode ser sinônimo de atraso e obsolescência.
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