Por Marcelo Emerson*

Redação Publicado em 19/05/2022, às 00h00 - Atualizado em 20/05/2022, às 10h24
Por Marcelo Emerson*
O rock não nasceu aristocrático. O seu gene mais remoto foi o clamor dos negros nos campos de algodão e nas igrejas dos EUA. Nos anos 50, a indústria cultural empacotou o novo estilo e deu a embalagem que convinha à sociedade norte-americana com Elvis Presley e Little Richard à frente.
Na Europa, o lamento negro se juntou à melodia branca das “baladas” e os Beatles estremeceram a Terra.
A versão mais rápida, distorcida e rude do rock recebeu o nome de “heavy metal”, nascido nas regiões industriais da Inglaterra nos anos 60.
Como não há nada que a lógica do mercado não corrompa, tais estilos deixaram de ser contracultura para servirem de paradigmas da indústria cultural. Adorno faz sinal de “joinha” como quem diz: “Eu avisei”.
No Brasil, reproduzimos algumas virtudes e muitos vícios disso tudo. Parafraseando Umberto Eco, muitos artistas logo estavam integrados à indústria de massa, enquanto alguns poucos são os apocalípticos. O apocalíptico insiste em ser sujeito e se recusa a ser reduzido a mero objeto.
Exemplo de apocalíptico é Carlos Lopes, um dos pioneiros do “heavy metal” verde e amarelo.
Com o apelido de Carlos Vândalo, o jovem Lopes colocou no cenário a Dorsal Atlântica. Simplificando, é a versão “heavy metal” de artistas únicos como Elza Soares, Ney Matogrosso e Jards Macalé.
Desde 1981 que a Dorsal vem causando admiração e perplexidade. Uniu o “heavy metal” com o punk em “Ultimatum” e “Antes do Fim”. Criou uma obra-prima de poesia e música bruta em “Dividir e Conquistar”. Com “Searching for the Light” ganhou da imprensa internacional o título de “thrash-ópera”, pois era como um livro musicado, recheado de denúncias das mazelas mais graves do nosso país. A trilogia se completou com “Musical Guide from Stellium” e “Alea Jacta Est
Depois de “Straight” a Dorsal hiberna após o show antológico no “Monster of Rock”. O retorno veio com o espetacular “2012”., que está sendo relançado numa edição comemorativa em vinil amarelo, acompanhado de ítens como adesivos e pôster, pelos selos independentes La Ursa Discos e CKD Discos, ambos sediados em Olinda.
“2012 foi seguido pelo excelente “Imperium”. A carreira da Dorsal chega ao ápice com “Canudos” e “Pandemia”, que trazem música pesada mesclada às músicas armorial e de religiões afro-brasileiras, com a “invenção” de uma guitarra especial batizada de “matadeira”, tudo para contar uma história sombria sobre o Brasil atual. Sempre se sustentando diretamente pelos admiradores (“crowdfunding”), a trajetória da Dorsal Atlântica clama: Não! O rock não nasceu para ser aristocrático.

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