Por Ricardo Sayeg

Redação Publicado em 16/11/2021, às 00h00 - Atualizado às 07h45
Por Ricardo Sayeg
Há um ano atrás, escrevi e ora reitero que a marginalização e a desumanização da comunidade afrodescendente em razão do racismo estrutural está comprovada pelo inaceitável assassinato covarde, brutal e desnecessário de George Floyd ocorrido nos EUA, aos 25/05/20, por meio cruel e motivo torpe, pelo policial branco Derek Chauvin, que, com a vítima dominada e deitada de bruços, se manteve ajoelhado no pescoço dele durante oito minutos e quarenta e seis segundos, asfixiando-o, apesar de George implorar pela sua vida, pedindo “please stop I can´t breathe”.
É necessário descortinar o inaceitável racismo estrutural que também há no Brasil; e, promover o efetivo enfrentamento a este lamentável fenômeno, que tenta embaraçar o regular desenvolvimento cultural, social, político e econômico da comunidade afrodescendente.
A participação da comunidade afrodescendente e de sua miscigenação, com mais de 50% em nossa estrutura social, é determinante para a definição de quem somos sob o ponto de vista cultural, social, político e econômico, enfim nacional.
A comunidade afrodescendente é elemento consubstancial, com todas as demais comunidades, que compõem a singularidade quântica constitutiva do povo brasileiro, de quem emana todo o poder, como ordena a Constituição Federal. No Brasil é impensável deixar de se levar em consideração, com especial importância, a existência da comunidade afrodescendente, sob pena de desconstruirmos nossa própria identidade nacional e mesmo nossa nação.
Sem a comunidade afrodescendente nos faltaria, enquanto povo brasileiro, um pedaço estrutural tão importante, que esta ausência chegaria ao ponto de dissolver o próprio núcleo irredutível existencial de nosso país.
Entretanto, não há como negar que os afrodescendentes são a maior parte dos desempregados e subempregados, assim como, a minoria nas posições de liderança das empresas e de altos representantes do Estado; e alvo de violência estatal.
É que, embora numericamente superior, a comunidade afrodescendente é vítima de racismo estrutural em razão de sua trajetória no país ter se iniciado não por opção na busca da felicidade, mas sim, mercê de expatriação, sequestro, tortura e subjugação, para o fim de submeter à escravidão e trabalhos forçados.
Discriminados pela cor da pele, os africanos que originalmente foram introduzidos no país, sequer eram considerados como seres humanos, porém sim como coisas inumanas, mercadoria, destituída de liberdade, direitos e dignidade.
Conquanto o abolicionismo por meio da Lei Áurea, que extinguiu a escravidão, tenha significado o mais importante salto civilizatório dado pelo Brasil em toda a sua história, outorgando liberdade, direitos e dignidade aos afrodescendentes; o fato é que, remanesce a discriminação racial estrutural, sustentada pelas desigualdades sociais associadas ao odioso mito de que são biológica e culturalmente inferiores.
Apesar de que, para efeitos legais, com a abolição da escravidão, os afrodescendentes tenham recebido o reconhecimento jurídico de igualdade entre todos os seres humanos, ainda, sob o ponto de vista econômico, social e cultural, continuaram estruturalmente a ser desprezados, inferiorizados e considerados de segunda classe.
De minha parte acho que temos que ser pragmáticos no combate ao racismo estrutural que continua presente; e, assim, vejo como uma boa medida, simples e imediata, a fim de levar a comunidade afrodescendente a uma atmosfera de oportunidade, o aprofundamento dos sistemas de cotas, especialmente nas universidades públicas, nos serviços públicos e nos cargos eletivos.

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