Médicos já haviam contraindicado a operação por se tratar de um caso de alto risco

Fernanda Viana Publicado em 01/08/2022, às 14h50
Os gêmeos Arthur e Bernardo, de 4 anos, nasceram compartilhando cérebro e a principal veia que leva o sangue ao coração. As crianças passaram por nove cirurgias para, enfim, serem separados. A história foi contada na última edição do Fantástico no domingo (31) pelos pais Adriely e Antônio.
O caso raro acontece a cada 2,5 milhões de nascidos vivos e foi tratado pelo SUS, no Rio de Janeiro, no Institudo Estadual do Cérebro. As criaças só conheciam o ambiente hospitalar e a cirurgia de separação era contraindicada por se enquadrarem na classificação mais grave do caso.
Como separar bebês que dividem uma única veia vital para os dois?
O neurocirurgião Gabrirl Mufarrej resolveu ajudar o casal e contrariando as estatísticas, marcou a primeira operação. A partir dessa, os outros procedimentos foram acontecendo com intervalos de três a quatro meses, desconectando aos poucos os irmãos.
Irmão gêmeos nasceram unidos pela cabeça e dividiram 15% de cérebro e importante veia que conduzia o sangue de retorno aos corações. Entenda cirurgia e técnica que é um triunfo da medicina: https://t.co/HwJ1XueTk4#Fantásticopic.twitter.com/SezbrF2ByD
— Fantástico (@showdavida) August 1, 2022
Para auxiliar nas cirurgias, os médicos utilizavam um modelo 3D do cérebro para entender a estrutura tão diferente.
"Várias vezes, durante as cirurgias, eu me perdia. A gente tinha que parar, sair de campo, para um auxiliar me mostrar [os modelos em 3D] e me ajudar a me localizar", explicou Gabriel.
Após sete cirurgias, Mufarrej buscou a ajuda do médico londrino Owasi Jeelani, conhecido como o profissional com mais experiência em separação de craniópagos pelo mundo para realizar as duas últimas - e mais importantes - operações.
Os procedimentos duraram, respectivamente, 13 e 23 horas. Os médicos se dividiram em duas equipes para cuidar cada uma de um dos gêmeos e após algumas pequenas complicações, Arthur e Bernardo estavam enfim separados.
"Foi muito difícil. Eu me perguntava se a gente iria conseguir. Em um momento, teve um sangramento enorme, e os anestesistas ficaram em pânico. Depois, nós conseguimos controlar", contou Mufarrej.
Agora os gêmeos seguem em recuperaçao e a alegria toma conta da família. O neurocirurgião afirma que eles podem ter algum atraso cognitivo, mas mesmo assim "possuem um futuro que ninguém esperava que eles fossem ter".
As cirurgias foram todas custeadas pelo SUS e o Instituto Estadual do Cérebro foi convidado a ser parceiro da Fundação Gemini Untwined, criada pelo Dr. Owase Jeelani.
A equipe do médico Gabriel Mufarrej será referência para futuras cirurgias de separação de gêmeos unidos pela cabeça na América Latina.
Os gêmeos completaram seus 4 anos de vida pela primeira vez fora do hospital e poderão se ver e interagir de fato um com o outro.
"O maior sonho é ver eles recuperados, com saúde e até com uma vida social como as outras crianças. Poder estudar, poder jogar bola", conta o pai Antônio.
"Sentir o sol, o vento. Eles estão internados desde que nasceram. Agora é só felicidade", comemorou a mãe Adriely.
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