
por Mara Machado
Publicado em 05/08/2025, às 10h02
Neste Dia Nacional da Saúde, é inevitável olhar para o cenário do Brasil — e toda a América Latina — sem enxergar “uma grande tempestade no horizonte”, como descreve o mais recente relatório da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde)¹. A expressão não é metáfora gratuita: ela descreve o avanço contínuo e silencioso das doenças não transmissíveis (DNTs) — como hipertensão arterial, diabetes, câncer, doenças respiratórias crônicas — e os transtornos de saúde mental, que juntos formam um tsunami epidemiológico de efeitos macroeconômicos, sociais e humanos profundos. Ignorá-los é como construir casas na praia sem olhar a maré.
Segundo a OPAS, as DNTs são responsáveis por oito em cada 10 mortes na região e devem custar à América Latina e Caribe mais de US$ 2,5 trilhões até 2030, se mantido o ritmo atual. É um impacto que ultrapassa a lógica dos orçamentos da saúde: afeta a produtividade, reduz o PIB, pressiona sistemas previdenciários e compromete o desenvolvimento humano. Os transtornos mentais — ainda envoltos em estigmas ultrapassados — seguem trajetória semelhante, representando hoje uma das principais causas de incapacidade na região¹.
Apesar disso, os sistemas de saúde continuam estruturados para combater surtos, infecções e emergências, enquanto negligenciam a construção de um cuidado contínuo, territorial e centrado na pessoa. A maioria das DNTs poderia ser prevenida com políticas públicas efetivas, ambientes saudáveis e acesso a uma atenção primária de qualidade. Mas em muitos países latino-americanos, incluindo o Brasil, os serviços ainda são fragmentados, subfinanciados e alheios ao cotidiano das populações.
No Brasil, as consequências já são visíveis. Estima-se que, entre 2020 e 2050, o país perderá o equivalente a 4,5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em decorrência da carga de doenças não transmissíveis — mais do que Argentina, Chile e México, e semelhante ao impacto previsto em Honduras, Nicarágua e Bolívia¹. São bilhões de reais que deixam de circular na economia por conta de mortes prematuras, incapacidades evitáveis e queda na produtividade, ampliando o abismo entre potencial de crescimento e realidade.
Além disso, os dados revelam que o Brasil concentra 41% das mortes por DNTs na América Latina e Caribe, uma proporção alarmante quando se considera que o país representa pouco menos de um terço da população regional¹. Isso reflete tanto o peso demográfico quanto a fragilidade de estratégias integradas de prevenção. Se mantida essa tendência, o custo econômico da inação não será apenas fiscal — será social, institucional e geracional.
O consultor internacional em economia da saúde e doutor em história da economia André Medici, em análise recente², aponta que o maior custo das DNTs e da saúde mental não está apenas nos gastos diretos com tratamento, mas no que ele chama de “custos invisíveis”: perda de capital humano, desorganização da força de trabalho, desigualdade de acesso. Quando uma mulher jovem abandona o emprego para cuidar de um parente com Alzheimer, ou quando um adolescente com depressão não consegue concluir os estudos, é a economia que adoece junto com a sociedade.
Precisamos pensar em saúde de maneira sustentável. Isso exige redesenhar a lógica de investimento, valorizar a prevenção, fortalecer os vínculos com a atenção básica e, principalmente, modernizar a formação dos gestores da saúde, preparando-os para os desafios climáticos, sociais e epidemiológicos do presente. Sem esse salto estrutural, vamos continuar enxugando gelo.
Também é hora de abandonar o modelo verticalizado, que depende de heróis individuais, e investir em um sistema intersetorial, coordenado e baseado em evidências. Isso significa integrar saúde com educação, planejamento urbano, nutrição, cultura e meio ambiente. Significa não deixar que o jovem hipertenso ou a mulher com ansiedade sejam apenas estatísticas em relatórios — mas pessoas assistidas com dignidade, antes que os quadros se agravem.
Neste 5 de agosto, data que celebra a saúde como direito de todos e dever do Estado, a pergunta que precisamos fazer é: nossos sistemas estão preparados para as doenças que mais matam e incapacitam hoje? Ou seguimos equipando ambulâncias para socorrer tempestades que poderiam ser previstas — e evitadas?
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