
por Mara Machado
Publicado em 07/04/2026, às 08h00
As eleições presidenciais de 2026 se aproximam sob um pano de fundo incômodo, o Brasil segue tratando a saúde como despesa e não como investimento estratégico. O próximo presidente da República precisará escolher entre repetir o ciclo de soluções paliativas ou enfrentar, com coragem, os fatores estruturais que comprometem a sustentabilidade do sistema. A pergunta que deve orientar qualquer plano de governo é muito clara. O que precisa ser feito, de fato, para deixar a saúde do brasileiro, e do próprio país, mais sustentável?
Uma das prioridades passa pela formação dos profissionais de saúde frente à crise climática, questão ainda negligenciada. Eventos extremos, mudanças no perfil epidemiológico e novas pressões sobre o sistema já são realidade, mas a formação médica e das demais áreas da saúde segue, em grande parte, ancorada em um passado que não existe mais. Atualizar currículos, incorporar competências relacionadas à saúde ambiental e preparar gestores para decisões em cenários de crise não é agenda futura. É necessidade imediata. Sem isso, continuaremos reagindo mal e gastando mais.
Outra prioridade relevante é a resistência antimicrobiana, um problema silencioso, mas devastador. Embora o Brasil disponha de protocolos bem estabelecidos, a sua execução é desigual e, muitas vezes, precária. Falta estrutura, governança e, sobretudo, uma mudança cultural. Ainda prevalece a lógica de tratar o indivíduo sem considerar o impacto coletivo do uso indiscriminado de antibióticos. O próximo governo precisa induzir práticas mais responsáveis, fortalecer programas de stewardship, integrar vigilância sanitária e ambiental, e criar incentivos claros para o uso racional de antimicrobianos. Ignorar isso é aceitar uma crise sanitária de grandes proporções no médio prazo.
Consideramos os efeitos do clima e os impactos dos antimicrobianos. Mas para uma gestão pública realmente efetiva na saúde, precisamos olhar para médicos e demais profissionais de saúde. Eles precisam de mais atenção, e a saúde mental deles é prova disso.
Hospitais públicos e privados operam sob pressão constante, com jornadas extenuantes, escassez de recursos e ambientes emocionalmente desgastantes. O resultado é previsível, aumento de ansiedade, depressão e burnout. E profissionais exaustos erram mais, esse é um efeito colateral que não pode ser ignorado. Cuidar da saúde mental de quem cuida é, portanto, uma medida direta de segurança do paciente. Isso exige políticas institucionais, revisão de modelos de trabalho e compromisso real das lideranças.
Por fim, ampliar o acesso à saúde precisa deixar de ser um slogan e se tornar uma estratégia articulada de desenvolvimento nacional. Não há acesso sustentável sem investimento consistente em inovação, ciência e fortalecimento do complexo industrial da saúde. O Brasil ainda depende excessivamente de tecnologias e insumos externos, o que fragiliza o sistema e encarece o cuidado. Expandir a pesquisa clínica, estimular parcerias público-privadas e criar um ambiente regulatório mais eficiente são caminhos para aumentar autonomia e protagonismo. A saúde precisa ser vista como vetor de crescimento, não como um custo a ser contido.
O que une essas prioridades é um ponto em comum, todas exigem coordenação, visão de longo prazo e disposição para enfrentar interesses estabelecidos. Não são agendas simples, nem politicamente neutras. Mas são indispensáveis. O próximo presidente não poderá alegar desconhecimento, pois os problemas estão diagnosticados há anos. A verdadeira questão é se haverá coragem para agir.
Porque, no fim, a sustentabilidade da saúde brasileira não será definida por discursos de campanha, mas pelas decisões difíceis que forem tomadas ou evitadas a partir de 2027.
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