O Brasil discute produtividade como se fosse apenas um problema fiscal ou tecnológico. Não é.

Mara Machado Publicado em 06/03/2026, às 08h00
Enquanto países da OCDE geram entre 70 e 80 dólares por hora trabalhada, o Brasil permanece na faixa de 35 a 40 dólares. Produzimos cerca de metade do valor das economias avançadas. Essa diferença não se explica apenas por carga tributária ou inovação. Ela revela uma fragilidade estrutural: nossa infraestrutura humana.
Não existe produtividade sustentável em ambientes cronicamente adoecidos.
Em 2024, o Brasil registrou mais de 3,5 milhões de pedidos de afastamento ao INSS. Mais de 470 mil foram por transtornos mentais. Em 2025, os afastamentos por depressão e ansiedade ultrapassaram 530 mil casos — um recorde histórico. São centenas de milhares de trabalhadores temporariamente fora do sistema produtivo, além do presenteísmo silencioso, que não aparece nas estatísticas.
Cada afastamento representa perda de tempo produtivo, desorganização de equipes, aumento de custos previdenciários e impacto direto no PIB. Ainda assim, seguimos tratando saúde mental como um tema assistencial, e não como uma variável econômica.
É nesse contexto que a NR-1 ganha centralidade.
A norma estabelece o dever de identificar e avaliar riscos ocupacionais, incluindo os psicossociais, dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos. Não se trata de recomendação, mas de obrigação. Isso significa que a própria organização do trabalho pode -- e deve -- ser analisada como fator de risco.
A NR-1 introduz um princípio essencial: risco psicossocial é tema de gestão, não apenas de cuidado clínico. Produtividade nasce da previsibilidade organizacional. E previsibilidade depende de governança.
Países mais produtivos estruturam sistemas formais de gestão de riscos, monitoram fatores psicossociais e integram saúde à estratégia corporativa. Não é filantropia. É competitividade.
No Brasil, ainda enxergamos saúde como custo. Na realidade, ela é infraestrutura econômica. Enquanto insistirmos em debates sobre produtividade que ignoram a dimensão da saúde, continuaremos a perder eficiência, não por falta de inteligência ou tecnologia, mas por falta de governança capaz de sustentar o trabalho.
Produtividade não é economia.
É governança da saúde.
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