
por Mara Machado
Publicado em 01/05/2026, às 08h00
Estamos em mais um ano de Copa do Mundo. E, inevitavelmente, isso nos faz olhar para trás e lembrar de 2014, quando o Brasil esteve no centro do mundo.
À época, havia um discurso muito atraente sobre o salto de desenvolvimento que um dos maiores eventos esportivos do mundo poderia representar para o país. Mobilidade urbana, aeroportos, ampla infraestrutura, tudo isso seria legado permanente para a população.
O que se vendeu não foi apenas futebol. Foi futuro.
Bilhões de reais em recursos públicos foram mobilizados. Projetos ambiciosos foram anunciados em larga escala. A promessa era de transformação estrutural, com impacto direto na vida das pessoas. Mas o que ficou, de fato, mais de uma década depois?
Uma parte relevante dessas promessas não se concretizou. Projetos foram interrompidos, outros ficaram pelo caminho, muitos foram entregues de forma incompleta ou com atrasos que comprometeram o seu propósito original.
Isso sem entrar no capítulo conhecido e recorrente da ineficiência, má alocação de recursos e corrupção. O ponto central, porém, vai além desses desvios. Ele revela um padrão.
O Brasil sabe planejar. O país elabora projetos consistentes, mobiliza narrativas, constrói consensos e gera expectativas em torno de grandes iniciativas. Mas falha, repetidamente, naquilo que realmente transforma realidades: a execução.
Planejamento sem execução não gera legado. Gera frustração. E esse padrão não se limita à infraestrutura ou a grandes eventos. Ele se repete, de forma ainda mais crítica, na saúde.
O país conhece os seus desafios. Os diagnósticos são amplamente documentados, com o crescimento das doenças crônicas, envelhecimento da população, pressão sobre o sistema e desigualdades de acesso. Também não faltam políticas, programas e diretrizes bem estruturados. Mas, novamente, o problema está na execução.
Algumas transformações estruturais em saúde precisam de mais do que um único ciclo de governo. Elas exigem continuidade, coordenação entre diferentes esferas e, sobretudo, compromisso político que sobreviva às trocas de gestão.
Sem isso, o que se vê são iniciativas que começam com força, mas perdem fôlego; programas que não se sustentam e recursos que não se traduzem em impacto real.
A lógica é a mesma. Sem governança sólida, sem liderança comprometida com entrega e sem visão de longo prazo, até os melhores planos se tornam promessas.
E promessas, como já vimos, não deixam legado.
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