
por Mara Machado
Publicado em 19/03/2026, às 09h53
Uma reportagem recente ganhou destaque na imprensa e voltou a lançar luz sobre uma ameaça que há anos cresce de forma silenciosa no Brasil: a resistência aos antimicrobianos (RAM). O dado mais alarmante não está apenas no aumento dos casos, mas na mudança de padrão.
Bactérias historicamente associadas ao ambiente hospitalar, como o Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), passam a circular fora de hospitais, atingindo crianças, idosos e populações vulneráveis. Em algumas regiões, mais de um quinto das infecções já apresenta resistência a antibióticos comuns.
Esse avanço não ocorre por acaso. Ele é, em grande medida, consequência direta de práticas inadequadas no uso de antibióticos ao longo do tempo. E aqui reside um ponto incômodo: falhamos no básico. Uma pesquisa realizada ano passado pelo Instituto Qualisa de Gestão (IQG), com 104 hospitais públicos e privados do país, revela que um quinto das instituições não ajusta corretamente a dosagem de antibióticos, medida essencial para evitar tanto o uso excessivo quanto o tratamento ineficaz.
Ainda mais grave é que 87,7% dos hospitais utilizam antibióticos de forma empírica, operando por tentativa e erro, mesmo diante da resistência crescente dos microrganismos.
Não se trata de ausência de conhecimento técnico, pois diretrizes existem, comissões de controle de infecção hospitalar estão instituídas e riscos são amplamente conhecidos. O problema é de execução, governança e prioridade.
Quando o uso racional de antibióticos não é tratado como indicador estratégico de qualidade assistencial, ele se dilui na rotina operacional e abre espaço para práticas inseguras. O resultado é previsível: aumento da resistência aos antimicrobianos, maior risco clínico e pressão adicional sobre o sistema de saúde.
A RAM está associada a milhões de mortes por ano no mundo e pode superar o câncer até 2050. No Brasil, estima-se que 48 mil óbitos anuais por infecções resistentes. Além do impacto clínico, há efeitos diretos sobre o sistema de saúde: tratamentos que falham, internações mais longas, necessidade de antibióticos mais caros e maior ocupação de leitos. Assim, a RAM compromete simultaneamente a segurança do paciente, a eficiência assistencial e a sustentabilidade econômica.
Mas os danos não param nesta esfera: existe também o impacto ambiental. O descarte inadequado de antibióticos e a ausência de controle sobre efluentes hospitalares contribuem para a disseminação de microrganismos resistentes no meio ambiente, ampliando o ciclo de contaminação. A pesquisa do IQG mostra que nenhum dos hospitais avaliados possui protocolos estruturados para esse controle. Ignorar essa etapa é transferir o problema para fora dos muros institucionais e, inevitavelmente, trazê-lo de volta em escala ampliada.
Fica evidente que o enfrentamento da resistência antimicrobiana não pode ser uma agenda isolada ou exclusivamente clínica. Trata-se de tema central para a construção de um modelo de saúde sustentável. Isso implica integrar prevenção, qualidade assistencial, gestão eficiente de recursos e responsabilidade ambiental em uma mesma lógica de decisão. O uso racional de antibióticos precisa deixar de ser uma recomendação técnica e passar a ser um compromisso institucional mensurável, acompanhado e cobrado.
Avançar nessa agenda exige coordenação. Gestores públicos e privados precisam alinhar incentivos, fortalecer sistemas de monitoramento e garantir a implementação efetiva de protocolos. A classe médica, por sua vez, tem papel decisivo na prescrição responsável e no abandono de práticas baseadas exclusivamente na experiência empírica. E o sistema como um todo precisa investir em vigilância epidemiológica mais inteligente, integrando dados laboratoriais, atenção primária e hospitais.
A resistência bacteriana não é apenas uma ameaça futura, ela já está em curso. E o seu avanço revela, acima de tudo, as fragilidades de um sistema que ainda não conseguiu transformar conhecimento em prática consistente. Se quisermos evitar que infecções comuns voltem a ser potencialmente fatais, será necessário mais do que tecnologia e novos medicamentos. Será preciso, antes de tudo, corrigir o que já sabemos e ainda não fazemos.
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