
por Kleber Carrilho
Publicado em 08/02/2025, às 11h00
A cena de Davi Alcolumbre e Hugo Motta indo ao gabinete do presidente Lula logo após suas eleições para o comando do Senado e da Câmara não é apenas uma formalidade. É um retrato do arranjo político brasileiro, onde o Legislativo, na prática, continua subordinado ao Executivo. Em qualquer outro cenário de equilíbrio entre os Poderes, seria natural que o chefe do Executivo visitasse os novos líderes do Legislativo para reforçar o respeito institucional. Mas, quando os eleitos vão até o presidente da República, a mensagem é clara: o governo ainda tem o controle da pauta.
Se essa relação vai mudar? Pelo menos no início, não. Como toda a nova configuração de poder, haverá uma lua de mel inicial, marcada por compromissos assumidos e cargos distribuídos. Tanto Alcolumbre quanto Motta chegaram aos seus postos com o respaldo de grupos poderosos dentro do Congresso, e a execução da liderança vai depender do equilíbrio que conseguirem manter entre essas forças. Eles não podem simplesmente tocar as agendas que gostariam e virar as costas para quem os colocou ali. Na política, principalmente em ambientes como esses, as coisas são muito mais complexas.
Os ex-presidentes Rodrigo Pacheco e Arthur Lira, ao apostarem em seus sucessores, mantiveram suas redes de influência. Isso significa que, mesmo sem o protagonismo direto, continuam puxando os fios da articulação política dentro do Congresso. Para Alcolumbre e Motta, o desafio será conduzir as casas legislativas sem romper com as alianças que garantiram as suas eleições. E este é um cenário que, dado o perfil heterogêneo e muitas vezes contraditório dos grupos que os apoiaram, vai ser difícil de administrar.
Para Lula, a vitória dos dois representa um ambiente favorável para seguir o plano político. O presidente já deu inúmeros sinais de que caminha para a direita na governabilidade, ampliando alianças e concedendo espaço para partidos e setores que já foram oposição. Seu maior objetivo neste momento é garantir que Bolsonaro continue inelegível e que a direita (principalmente a ideológica, que ele não controla) chegue enfraquecida a 2026, sem um nome único capaz de enfrentar o governo com força.
Os próximos meses vão dizer até que ponto esse novo Congresso vai ser mais previsível para Lula. Ou se as disputas internas podem gerar surpresas. Mas, por enquanto, o que se vê é um Executivo forte, um Legislativo que, embora tente criar asas desde os governos de Dilma e Bolsonaro, ainda se mantém alinhado ao que manda o presidente da República e uma oposição que, apesar de barulhenta nas redes e nas sessões do parlamento, segue sem um rumo claro.
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