
por Fabiana Sena
Publicado em 05/12/2024, às 11h43
Há milênios, os fogos de artifício, com suas luzes e estampidos esplendorosos, vêm encantando gerações.
Historiadores indicam que sua origem provém de povos asiáticos e é anterior à descoberta da pólvora. Consta que, desde a China Antiga, cerca de dois mil anos antes de Cristo, era comum que as pessoas produzissem os estrondos na virada do Ano como forma de espantar os maus espíritos ou demônios.
Acredita-se, então, que venha daí a tradição mundial de soltar fogos de artifício no réveillon como forma de saudação ao Ano vindouro.
Significa dizer que o costume e a paixão pela pirotecnia, iniciados por questões religiosas e comemorativas, além de seculares, não saem de moda.
No Brasil, além do réveillon, marca registrada das queimas de fogos, tendo como exemplos clássicos a "Queima da Praia de Copacabana" no Rio de Janeiro e o "Réveillon da Paulista" em São Paulo, os fogos são comumente utilizados em comemorações diversas, como casamentos, aniversários, festas juninas, campeonatos de futebol e formaturas.
No entanto, a polêmica atual em torno dos fogos de artifício não se encontra na sua inegável beleza, mas nos efeitos deletérios que sua utilização pode causar.
Está comprovado pela ciência que o barulho causado por fogos de artifício causa incontáveis males para animais, idosos, pessoas com transtorno do espectro autista, dentre outros.
Animais silvestres ou domésticos costumam sofrer muito com as queimas de fogos, especialmente os cães, que, segundo o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), têm a capacidade auditiva maior que a dos humanos e, para eles, barulhos acima de 60 decibéis podem causar estresse físico e psicológico. Como consequência desse estresse, podem ocorrer fugas e acidentes durante o barulho, bem como o desenvolvimento posterior de doenças cardíacas, imunológicas, metabólicas, neurológicas (convulsões e desmaios), infartos e até a morte.
No que se refere a pessoas com autismo, o problema também reveste de extrema seriedade. Segundo especialistas, muitas pessoas com tal transtorno, especialmente crianças, possuem uma hipersensibilidade sensorial aos estímulos do ambiente e, quando expostas aos barulhos provenientes de fogos, entram em crises de pânico. Essas crises podem ocasionar diversos problemas, como reações agressivas ou imprevisíveis, estresses e ansiedade, que podem afetar o comportamento da pessoa ou criança por longos períodos.
Além dos exemplos acima, o barulho causado pelos fogos também pode causar desconforto e crises nervosas ou de ansiedade em idosos, crianças pequenas e outros doentes.
A discussão sobre os males causados pelos fogos de artifício vem tomando corpo dia a dia, de modo que já existem projetos de lei no sentido de se proibir, em todo o território nacional, o comércio de fogos e artefatos pirotécnicos que emitam som.
As constantes abordagens sobre temas favoráveis ao bem-estar e proteção de minorias, em geral em situação de vulnerabilidade, fez com que fossem desenvolvidas alternativas para os malefícios causados pelo barulho decorrente de fogos. Já existem no mercado os chamados "fogos silenciosos", cujo barulho não é capaz de ser percebido pelas citadas categorias sensíveis (animais, autistas, idosos), mas produzem um belo espetáculo de luzes e cor.
É certo que o tema ainda será alvo de incontáveis debates, isso porque envolve de forma direta a indústria da pirotecnia e do entretenimento (assunto essencialmente comercial e econômico), além de questões como a tradição e o egoísmo próprio do ser humano, acostumado a se preocupar muito mais com seus efêmeros momentos de êxtase do que com um mal severo em face do próximo, seja ele homem ou animal.
Sem negar a irrefutável fascinação que os fogos de artifício provocam na maioria das pessoas, só com um pouco de empatia seremos capazes de efetuar nossas comemorações com respeito àqueles mais vulneráveis à pirotecnia.
Feliz Ano Novo!!!
Se possível, com mais empatia e fogos "silenciosos".

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