
Adriana Galvão Publicado em 11/10/2024, às 15h14
Os sites de apostas, bets, caça-níqueis eletrônicos e congêneres dominam o noticiário. Não sem razão: representam significativa fonte de receita para o governo e, paralelamente, tornaram-se fator relevante de desestruturação pessoal, familiar e social. Sabe-se desde sempre que jogos de azar podem viciar como drogas, mas a legislação é condescendente com sua face virtual e, agora, corre-se para minimizar os prejuízos. O pente-fino do governo está em curso, as bets irregulares estão sendo retiradas do ar, mas espera-se o aprimoramento legal do setor.
O vício, inequivocamente, leva ao drama. Não bastassem os indícios de que alguns sites de apostas servem à lavagem de dinheiro, portanto ao crime organizado, tais plataformas recebem 1 bilhão de acessos por mês no Brasil, segundo levantamento da consultoria digital Bites. A líder do ramo registrou 97,9 milhões de acessos no período de um mês, com 44 milhões de usuários únicos. Cassinos virtuais patrocinam times de futebol.
Os jogos de apostas envolvem, primeiro, o aspecto educacional: o princípio da liberdade para o indivíduo dispor do próprio dinheiro como quiser deve ser respeitado, mas cabe ao Poder Público fazer advertências sobre as consequências do hábito de forma clara e contundente, e impedir que crianças e adolescentes tenham acesso a cassinos virtuais e assemelhados. O segundo aspecto é de saúde: como todo vício, o de jogar - mais precisamente, apostar - precisa ser tratado. E o vício em caça-níqueis eletrônicos no Brasil parece alcançar níveis pandêmicos.
A pessoa viciada em jogos de azar não tem limites nessa atividade, desenvolvendo um transtorno listado na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) como “jogo patológico”. Os episódios de jogo dominam-lhe a vida, prejudicam seus compromissos sociais, profissionais e familiares. Levam-na ao caos financeiro.
Livrar um indivíduo do vício em jogos de azar, eletrônicos ou não, requer atenção médica especializada, pois a cada ganho o cérebro libera mais dopamina, neurotransmissor responsável pela motivação. Trata-se de uma situação paradoxal: quanto mais se perde, mais prazerosa se torna a eventual vitória. O vício em jogos provoca isolamento social, sensação crônica de tédio, ansiedade e depressão. Essa pessoa prioriza o jogo em detrimento das outras esferas da vida, sente necessidade de passar cada vez mais tempo jogando, apresenta descontrole emocional, sofre dores musculares e de cabeça por passar horas demais diante de uma tela.
A situação brasileira quanto às plataformas de apostas não poderia ter chegado a este ponto. Há responsáveis por esta crise social e de saúde que estamos vivendo - que sejam identificados e alijados da vida pública.
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