Diálogo entre líderes inclui críticas às tarifas americanas e busca por soluções para conflitos globais
Gabriela Thier Publicado em 20/08/2025, às 15h33
No cenário atual de tensões comerciais, especialmente devido à imposição de tarifas pelos Estados Unidos, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente francês Emmanuel Macron firmaram, nesta quarta-feira (20), um compromisso em avançar nas negociações para a conclusão do acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Este tratado, que está sendo discutido há mais de duas décadas, ainda enfrenta barreiras significativas, com a França demonstrando particular resistência à sua implementação.
O presidente Macron expressou preocupações acerca do acordo, ressaltando que ele não atende adequadamente às exigências ambientais relacionadas à produção agrícola e industrial. Em contrapartida, Lula defendeu que a França adota uma postura protecionista em relação aos seus próprios interesses agrícolas. Neste semestre, com o Brasil assumindo a presidência do Mercosul, o governo brasileiro visa finalizar o tratado com os europeus.
A disposição de Macron se alinha aos interesses brasileiros de diversificar parcerias e fortalecer acordos que beneficiem os países do Sul Global. Em comunicado após uma ligação telefônica entre os dois líderes, o Palácio do Planalto afirmou: "Macron e Lula comprometeram-se a ultimar o diálogo com vistas à assinatura do acordo Mercosul-União Europeia ainda neste semestre, durante a presidência brasileira do bloco."
A nota oficial também destacou que "o Brasil continuará trabalhando para concluir novos acordos comerciais e abrir mercados para a produção nacional".
Durante a ligação, que se prolongou por quase uma hora, foram discutidos diversos assuntos das agendas global e bilateral. O Palácio do Planalto informou que ambos os presidentes reafirmaram seu apoio ao multilateralismo e ao livre comércio. Além disso, manifestaram a intenção de promover uma cooperação mais robusta entre as nações desenvolvidas e o Sul Global, em prol de um comércio baseado em regras acordadas internacionalmente.
O Mercosul já firmou um acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), composta por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, e continua suas negociações com novos parceiros como Japão, Vietnã e Indonésia. Nesse contexto mais amplo, Lula também está organizando uma cúpula virtual do Brics para setembro.
Especialistas consultados pela Agência Brasil sugerem que as medidas adotadas pelos Estados Unidos podem ser vistas como uma estratégia política destinada a desestabilizar o Brics, um agrupamento de economias emergentes que Washington considera uma ameaça à sua hegemonia global. Recentemente, o ex-presidente Donald Trump elevou tarifas sobre determinados produtos importados do Brasil para 50%, alegando retaliação às ações que poderiam prejudicar as grandes empresas tecnológicas dos EUA.
No diálogo com Macron, Lula repudiou as tarifas comerciais utilizadas como instrumentos políticos contra o Brasil. Ele detalhou as medidas implementadas pelo governo brasileiro para proteger trabalhadores e empresas nacionais e mencionou um recurso apresentado ao Organização Mundial do Comércio (OMC) contestando essas tarifas americanas consideradas injustificadas.
Em relação ao meio ambiente, Macron confirmou sua participação na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), agendada para novembro em Belém, Pará. Lula descreveu essa conferência como "a COP da verdade", enfatizando a importância de evidenciar quais países realmente apoiam a ciência no enfrentamento das mudanças climáticas.
Os líderes também discutiram as negociações de paz entre Rússia e Ucrânia, um conflito que se arrasta há mais de três anos. Durante esta semana, Macron esteve na Casa Branca acompanhando o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy em um encontro com Donald Trump, onde foi abordada a necessidade de uma solução para a guerra.
O presidente francês elogiou a iniciativa do Grupo de Amigos da Paz — liderada pelo Brasil e pela China — em busca de soluções comuns para apoiar os esforços globais por paz. Os dois presidentes concordaram em manter um diálogo contínuo sobre esse conflito.
Lula expressou preocupação com o aumento dos gastos militares no mundo enquanto cerca de 700 milhões de pessoas continuam enfrentando a fome. Ele destacou a recente saída do Brasil do Mapa da Fome da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e defendeu reformas nas instituições multilaterais para garantir uma governança global mais justa e representativa.
No campo bilateral, ambos os líderes comprometeram-se a aprofundar a cooperação nas áreas de defesa, onde já estão colaborando em projetos como construção de helicópteros, submarinos e satélites.