
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 20/08/2025, às 09h25
A reunião de 18 de agosto em Washington, DC, reunindo Donald Trump, Volodymyr Zelensky e alguns líderes europeus, mais revestiu-se de um significado singular: implementar uma das principais promessas eleitorais de Trump — encerrar de forma rápida e definitiva a guerra da Ucrânia. Para o presidente norte-americano, que retornou ao centro do tabuleiro político mundial, um acordo de paz não seria apenas um triunfo diplomático, mas a consagração de sua imagem como o grande estadista capaz de resolver o maior conflito europeu desde 1945. Mais do que encerrar uma guerra prolongada, seria projetar-se como líder global da paz, algo que teria enorme repercussão na política interna e externa dos Estados Unidos.
No fundo, a guerra da Ucrânia nunca deixou de ser um confronto por procuração entre Washington e Moscou, e não uma simples disputa territorial confinada ao Leste Europeu. É justamente por isso que a Europa ocupa papel secundário. Os principais líderes europeus —enfrentam índices de aprovação que em muitos casos não superam os 20%, imersos em crises econômicas persistentes e sem capacidade de formular uma estratégia coesa. A União Europeia, representada por Ursula von der Leyen, carece de legitimidade política real para exercer liderança. Num episódio que ilustra quase caricaturalmente essa fragilidade, líderes europeus chegaram a referir-se a Trump como um “papai”, revelando o nível de submissão e a ausência de autonomia estratégica. A Europa, que em outros tempos ditava o rumo da história, encontra-se hoje reduzida a vassala de Washington.
Esse quadro reflete uma deterioração mais ampla. O continente não se recuperou plenamente da Covid-19, acumula dificuldades econômicas estruturais, enfrenta declínio de competitividade global e mostra-se incapaz de renovar sua liderança política. A falta de perspectivas, combinada à fragilidade de governos impopulares, empurrou a Europa a buscar proteção debaixo da asa norte-americana, renunciando a qualquer projeto de autonomia estratégica. A guerra da Ucrânia, que poderia ter sido tratada como oportunidade para repensar a relação com Moscou, acabou reforçando o erro histórico de tratar a Rússia apenas pelo prisma da antiga União Soviética, ignorando o fato inalterável de que Moscou é uma potência real e vizinha incontornável do continente.
Neste cenário, Vladimir Putin emergiu fortalecido. Desde a reunião no Alasca, ficou patente que a Rússia não é uma potência regional, como Barack Obama sugeria, mas sim um ator global de primeira grandeza, especialmente no campo militar. Seus objetivos estão claros: assegurar a posse de parte significativa dos territórios conquistados, impedir definitivamente a entrada da Ucrânia na OTAN e consolidar o país como uma zona neutra. Putin recusa a lógica de um mero cessar-fogo, pois sabe que isso daria tempo para o rearmamento ucraniano. Sua aposta é por um acordo de paz duradouro, que legitime a posição russa e estabilize o equilíbrio regional.
Trump parece inclinado a aceitar essa lógica. Um acordo abrangente lhe daria o protagonismo histórico e reforçaria sua narrativa de líder capaz de resolver impasses globais que seus antecessores não conseguiram. Se as conversas diretas com Putin não prosperarem, culpará a ausência de liderança europeia e o “ilegítimo” presidente Zelensky. Caso contrário, será o presidente que não apenas aumentou os gastos de defesa europeus e tornou os Estados Unidos o grande fornecedor de energia do continente, mas também o líder que trouxe a paz.
Já Zelensky chegou a Washington enfraquecido. Apesar de uma recepção melhor que a anterior e amparado no apoio de líderes europeus, o fato é que Zelensky, que tem governado sob lei marcial, com legitimidade corroída e promessas não cumpridas, retorna a Kiev com menos do que havia garantido à sua população. Uma eventual concessão em nome da paz pode acelerar o desgaste interno e transformá-lo em alvo de críticas de ser o líder que sacrificou a integridade do país.
No balanço final, Trump sai como um grande vencedor desta conjuntura: capitaliza a fragilidade europeia, reposiciona os Estados Unidos como potência energética e defensiva indispensável para a Europa e, se lograr êxito nas negociações, deixará como legado o título de pacificador. Entre os perdedores, destacamos a Ucrânia, que perdeu território e se viu reduzida ao papel de mero instrumento num embate maior entre Estados Unidos e Rússia. A OTAN, fortalecida no início do conflito , perdeu, ainda mais, a sua importância ao reconhecer que sem os Estados Unidos, não tem capacidade de defesa ou possibilidade de existência. E a Europa, outrora epicentro da política mundial, consolida-se como coadjuvante, sem voz própria e sem projeto de futuro.

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