
por Reinaldo Polito
Publicado em 17/08/2025, às 08h56
Sobre a possibilidade de ligar para Trump, Lula afirmou: “Não vou me humilhar.” Nesse comentário, não ficou claro se o humilhado seria ele ou o país. Mas, quando o futuro de uma nação está em jogo, às favas o orgulho. O único objetivo deveria ser o de encontrar soluções para o problema.
Os críticos censuram Eduardo Bolsonaro por agir contra o país. Há quem o considere traidor da pátria. Segundo opositores, ele estaria nos Estados Unidos municiando o governo americano com informações sobre supostos abusos do Judiciário.
Argumentam os governistas que não adiantaria tentar negociar a tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros exportados para os EUA porque Trump, como primeira condição, exige acabar com o julgamento de Bolsonaro imediatamente.
Condições impostas por Trump para negociar
As exigências do chefe do Executivo americano vão além, incluindo liberdade de expressão e liberdade irrestrita de atuação das Big Techs no Brasil. Só no fim de sua mensagem é que menciona a tarifa e a possibilidade de negociação.
O governo brasileiro afirma estar de mãos atadas, já que decisões sobre o julgamento do ex-presidente são exclusivas do Judiciário. Não teria como se sentar a uma mesa para discutir as taxas se, para isso, fosse preciso tratar de Bolsonaro e das Big Techs.
A resposta a essa questão pode ser sim e não. Da mesma forma que Trump “atravessou a linha” impondo esse cenário, caberia a Lula estar preparado para mostrar aos Estados Unidos que o julgamento do ex-presidente é justo, que existe liberdade de expressão e que não haverá prejuízo para as Big Techs.
Um presidente deveria ter mais estatura política que um deputado
Se Eduardo Bolsonaro, um simples deputado federal, conseguiu apresentar argumentos que levaram os americanos a fazer essas exigências, Lula, como presidente da maior potência da região, deveria usar sua estatura de chefe de Estado para demonstrar que há equívoco na avaliação feita. A não ser, evidentemente, que não existam argumentos.
Quanto ao fato de se humilhar, já tivemos exemplos memoráveis de como se comportar nessas situações. Um deles, protagonizado por José Sarney, foi emblemático. Especialistas dizem que sua atuação foi uma das maiores conquistas diplomáticas do Brasil.
Um anfitrião grosseiro e antipático
No mês de setembro de 1986, a exemplo do que ocorre agora, o Brasil vivia um dos piores momentos diplomáticos com os Estados Unidos. Nossa dívida era astronômica e impagável, e o país sofria uma de suas mais delicadas crises econômicas. Ainda assim, Sarney estufou o peito e resolveu enfrentar os americanos. O presidente dos EUA era Ronald Reagan.
O anfitrião foi grosseiro e antipático. No discurso de recepção, afirmou: “Nenhum país pode continuar exportando para outros se seus mercados domésticos estão fechados para a concorrência estrangeira.” E prosseguiu: “Nenhum país deve crescer à custa dos outros.”
Os ringues de cada um
Sarney assimilou o golpe e não se abateu. Na primeira oportunidade, revidou sem ser ofensivo: “O presidente Reagan disse esta manhã que nenhum país pode crescer à custa dos outros; nós concordamos com isso. O Brasil sempre cresceu graças às suas potencialidades, através do seu trabalho e do sacrifício do povo.”
Estavam na comitiva Rubens Ricupero e Dilson Funaro. Eles discutiram as questões econômicas com os técnicos americanos. Funaro mostrou que os juros internacionais haviam subido de maneira absurda devido aos déficits fiscais dos Estados Unidos, respondendo por 25 bilhões da nossa dívida. Argumentou que, para continuar crescendo, o Brasil precisaria importar; e que, para importar, ou não pagaria a dívida ou os juros teriam de cair. Foi tão preciso que não houve refutação.
Discursos diplomáticos e habilidosos
Enquanto isso, Sarney fazia a sua parte. Em seus discursos, falava das semelhanças entre os ideais dos povos brasileiro e americano, da proximidade entre os dois Congressos, das aspirações comuns. Os pleitos brasileiros eram indigestos: manutenção da reserva de mercado para a informática, redução de tarifas sobre nossos produtos, não pagamento da dívida, muito menos os juros.
Mesmo assim, com retórica hábil, Sarney quebrou a resistência americana e mostrou que o Brasil voltava a respirar os ares da democracia. Diante de tantos desafios, retornou ao país trazendo uma das vitórias diplomáticas mais expressivas da nossa história. Especialistas afirmam que foi graças a seus discursos que os EUA desistiram de retaliar o Brasil.
Quase quarenta anos depois, o governo brasileiro deveria aproveitar esse ensinamento histórico: vestir as sandálias da humildade e pensar no bem-estar do povo. Que não falte coragem nem humildade a Lula para buscar o diálogo. Siga pelo Instagram: @polito
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