Cresce número de vítimas de versões irregulares de tirzepatida e especialistas reforçam riscos

Gabriela Nogueira Publicado em 11/12/2025, às 16h28
A expansão do mercado clandestino que tenta reproduzir a tirzepatida, substância presente no medicamento Mounjaro, levantou um sinal de alerta entre autoridades sanitárias, especialistas e a própria Eli Lilly, fabricante do fármaco. A empresa tem reforçado que não mantém qualquer vínculo com manipuladores ou intermediários e que a circulação de versões irregulares representa um risco direto à saúde pública.
O aumento de casos envolvendo produtos adulterados ficou evidente após a experiência do chef Paulo Marin, de cinquenta anos. Atraído por relatos de emagrecimento rápido, ele procurou a substância em um espaço que se apresentava como consultório, onde recebeu aplicação de um produto sem qualquer comprovação de procedência. As reações apareceram imediatamente. Náuseas, tontura e vômitos marcaram a primeira dose, e os sintomas se intensificaram na tentativa seguinte. Sem acompanhamento clínico e sem uma receita legítima, ele descobriu que havia sido vítima de uma versão falsificada.
O caso de Paulo não é isolado. Cada vez mais pessoas têm recorrido a alternativas não regulamentadas na tentativa de acelerar o processo de perda de peso, muitas vezes sem compreender os riscos envolvidos. Segundo endocrinologistas ouvidos pela reportagem, a distância entre as exigências de segurança da Anvisa para medicamentos injetáveis e o cenário encontrado no mercado clandestino é profunda e preocupante.
A endocrinologista Maria Fernanda Barca, pesquisadora formada pela Universidade de São Paulo, explicou que análises laboratoriais conduzidas por especialistas identificaram problemas graves em diversas canetas irregulares apreendidas. Entre os achados estão pureza muito abaixo do mínimo aceitável, ausência de esterilidade, ingredientes de origem desconhecida e combinações imprecisas com substâncias potencialmente perigosas.
Outro especialista, Clayton Macedo, do Hospital Israelita Albert Einstein, relatou que amostras vendidas como tirzepatida apresentaram apenas entre sete e quatorze por cento de pureza, quando o produto aprovado pela Anvisa exige índice próximo de noventa e nove por cento. Essa discrepância, segundo ele, basta para transformar uma medicação segura em um composto imprevisível e capaz de causar danos severos.
A manipulação da tirzepatida é permitida no Brasil, desde que realizada dentro de normas rígidas. As regras incluem controle de qualidade rigoroso dos insumos e manipulação em espaços certificados. Fora desses padrões, consumidores ficam expostos a fórmulas que não atendem ao mínimo de segurança e que, muitas vezes, entram no país sem qualquer fiscalização.
Ivete de Freitas, aposentada de sessenta e nove anos, também viveu consequências dolorosas ao aplicar uma solução adquirida de forma informal. Minutos após a injeção, surgiram manchas vermelhas pelo corpo, que se espalharam rapidamente e se agravaram com o tempo. Ela interrompeu o uso assim que percebeu a reação intensa, mas relata que o episódio foi suficiente para alertá-la sobre os riscos das promessas fáceis.
Especialistas destacam que os efeitos adversos associados a substâncias irregulares podem variar desde sintomas gastrointestinais até infecções e complicações neurológicas, dependendo da composição presente e do grau de contaminação das amostras. Em situações extremas, há risco de óbito.
A Polícia Federal investiga esquemas responsáveis por fabricar e distribuir versões clandestinas da tirzepatida. A Eli Lilly reforçou que apenas canetas descartáveis, rastreáveis e liberadas mediante prescrição são autorizadas e que a empresa não comercializa matéria-prima para manipuladores. Segundo a fabricante, qualquer produto fora da rede oficial não tem garantia de integridade química ou microbiológica.
Enquanto cresce o interesse por medicamentos voltados ao emagrecimento, autoridades sanitárias reforçam que o caminho seguro continua sendo o acompanhamento médico e a aquisição de produtos devidamente registrados. A ampliação da fiscalização e a conscientização do público aparecem como passos essenciais para conter um mercado paralelo que avança sobre a desinformação.
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