A popularidade do clonazepam entre idosos é preocupante, pois pode levar a confusão mental e dependência emocional

Gabriela Nogueira Publicado em 22/10/2025, às 19h26
O clonazepam, um dos ansiolíticos mais consumidos no Brasil, liderou as vendas em 2024, com 39 milhões de unidades comercializadas. O dado levanta preocupações entre profissionais de saúde sobre o uso prolongado do medicamento, que pode causar dependência, prejuízos cognitivos e aumentar o risco de quedas entre idosos.
Considerado um calmante de uso comum, o clonazepam está presente na rotina de milhões de brasileiros, especialmente na população acima dos 60 anos. Estima-se que cerca de 2 milhões de idosos utilizem o remédio de forma contínua. Embora seja indicado para crises agudas de ansiedade e insônia, muitos o mantêm por anos, o que tem despertado alertas na área médica.
De acordo com o neurologista Alan Eckeli, especialista em Medicina do Sono da Universidade de São Paulo (USP), é comum que pacientes relatem dificuldade em dormir sem o medicamento. “Se não tomar clonazepam, não consigo dormir”, dizem com frequência. Segundo o médico, muitos não se lembram de quando começaram o tratamento, mantendo a prescrição por tempo indefinido.
A facilidade para obter o medicamento e a falta de acompanhamento médico adequado contribuem para o uso excessivo. Especialistas observam que o clonazepam é frequentemente prescrito por profissionais sem formação específica em saúde mental, como resposta rápida a sintomas de insônia ou ansiedade, sem investigação das causas.
Com o tempo, o organismo desenvolve tolerância à substância, exigindo doses maiores para alcançar o mesmo efeito. O resultado é um ciclo de dependência que pode comprometer a memória, a coordenação motora e o equilíbrio.
Conhecido comercialmente como Rivotril, o clonazepam pertence à classe dos benzodiazepínicos, que potencializam a ação do neurotransmissor GABA, responsável por reduzir a atividade cerebral. Quando usado de forma controlada, é eficaz no tratamento de epilepsia e distúrbios do sono. No entanto, o uso contínuo como calmante diário é desaconselhado por especialistas.
Uma pesquisa da PNAUM (Pesquisa sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos), realizada em 2022, revelou que cerca de 2 milhões de idosos utilizam benzodiazepínicos, e 41% fazem uso especificamente de clonazepam. Apesar da exigência de receita controlada, o acesso ao medicamento ainda é facilitado, inclusive pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A popularidade do clonazepam entre idosos está associada tanto à sua eficácia quanto a fatores sociais. O geriatra Pedro Curiati explica que a longa duração do efeito — que pode chegar a 24 horas — garante conforto, mas também favorece o acúmulo da substância no organismo, o que aumenta os riscos de confusão mental e quedas.
A psiquiatra Simone Kassouf destaca que muitos pacientes chegam aos consultórios já utilizando o remédio há anos, sem reavaliação médica. O alívio imediato e a sensação de tranquilidade reforçam o uso contínuo, dificultando a interrupção.
Em diversos casos, o medicamento é utilizado não apenas para tratar insônia ou ansiedade, mas também como uma forma de enfrentar a solidão, o luto e o isolamento social — fatores que agravam a dependência emocional e química.
Especialistas recomendam que a interrupção do clonazepam seja feita de forma gradual e sempre sob orientação médica. O processo deve incluir o tratamento das causas da ansiedade ou da insônia, com apoio de abordagens como a terapia cognitivo-comportamental, considerada uma alternativa eficaz, embora ainda pouco acessível na rede pública.
Para os profissionais, o cenário atual evidencia um desafio duplo: controlar o uso indevido do medicamento e oferecer suporte emocional adequado à população idosa. O clonazepam, apontam, pode ser um aliado em momentos pontuais — mas seu consumo prolongado revela um problema mais profundo na forma como o país trata o sono, a saúde mental e a solidão.
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