
por Reinaldo Polito
Publicado em 19/03/2023, às 12h14
Virou verbo. Quando alguém não fala coisa com coisa, diz-se que ele “dilmou”. Esse neologismo apareceu por causa das trapalhadas verbais da ex-presidente Dilma. De vez em quando, ela metia os pés pelas mãos e construía frases desconexas, incompreensíveis.
Os equívocos na comunicação de Dilma foram tão gritantes que o jornalistaCelso Arnaldo, depois de realizar minuciosa pesquisa, escreveu um livro tratando apenas da inaptidão dela para falar em público. A obra, “Dilmês: o idioma da mulher sapiens”, foi sucesso de vendas no país.
A apresentação do livro de Celso afirma que “já em meados de 2009, no exato momento em que a funcionária pública mineira de origem búlgara começou a se apresentar aos brasileiros como presidenciável, era possível notar que havia algo de errado naquele discurso no qual palavras eram despejadas a esmo, sem dar liga a uma única ideia à altura do cargo que postulava”.
Depois que tomou posse como presidente, teve de ocupar com frequência a tribuna, e o defeito ficou ainda mais acentuado. Só para dar ideia, durante um dos anos de seu mandato como chefe do Executivo ela proferiu 180 discursos, ou seja, um pronunciamento a cada dois dias.
Mesmo ela estando fora do poder já há alguns anos, vale a pena ler esse livro tão instigante, divertido e instrutivo. Até quem critica severamente a comunicação da ex-presidente poderá se dar conta de que vez ou outra escorrega pelo “dilmês”. Essa tomada de consciência ajuda a corrigir rotas e evitar que os erros sejam repetidos.
Muitos perguntam o motivo dessas confusões “dilmísticas”. Afinal, alguém que ocupou tantas funções importantes até chegar à presidência da República por duas vezes já se acostumou a usar a palavra em público. Não deveria cometer deslizes considerados primários com sua oratória. Vou me referir a ela no passado para evidenciar sua comunicaçãocomo presidente.
Há algumas explicações que nos ajudam a entender o motivo desses atropelos linguísticos. A primeira delas é que Dilma se preparava até a página dois para se apresentar diante da plateia. Em vez de se municiar de informações suficientes, colhia para compor seus discursos apenas dados esparsos aqui e ali, como se pudessem dar respaldo à mensagem que iria transmitir. Não davam. E ela não poderia diante do público parar no meio da exposição. Era preciso completar o que havia iniciado.
Aí entra a segunda explicação para os seus voos destrambelhados. Todos nós estamos sujeitos a ter branco em determinado momento. Esse fato acontece até com os mais traquejados oradores, aqueles que possuem boa quilometragem de microfone. Nessas ocasiões, quando o termo some e a sequência das ideias teima em ficar longe do raciocínio, a solução emergencial é a de pronunciar qualquer palavra, como, por exemplo, “esperança”. Como a palavra não tem somente sentido restrito, mas pode também se transformar em gatilho para força de expressão, é possível com esse artifício reencontrar o norte do discurso: “A esperança de que novas oportunidades possam surgir”. “A esperança de que com a implantação dessas ideias outros caminhos sejam encontrados”. Assim como outros vocábulos, só para dar mais um exemplo, “desafio”. “O desafio de superarmos todos os obstáculos que teimam em prejudicar a realização dessa tarefa”. “O desafio de chegarmos ao fim dessa jornada com o sentimento do dever cumprido”.
Em situações extremas, bem de vez em quando, esse pode ser um recurso salvador. Muito melhor que ficar parado na frente dos ouvintes sem saber o que dizer.
No caso de Dilma, como ela não se preparava de forma adequada, e tendo de falar em públicoquase todos os dias, essas circunstâncias eram comuns, quase o pão nosso de cada dia. Por isso, com frequência, jogava as palavras para tentar encontrar uma saída, mas nem sempre a solução que esperava surgia, e as frases ficavam sem pé nem cabeça. Vamos recordar algumas delas:
“Eu vi. Você veja...Eu já vi, parei de ver. Voltei a ver e acho que o Neymare o Ganso têm essa capacidade de fazer a gente olhar”.
“Eu estou muito feliz de estar aqui em Bauru. O prefeito me disse que eu sou, entre os presidentes, nos últimos tempos, uma das presidentes, ou presidentes, que esteve aqui em Bauru’.
“Em Vidas Secas está retratado todo o problema da miséria, da pobreza, da saída das pessoas do Nordeste para o Brasil”.
Se você jogar uma ou outra palavra de vez em quando para se livrar de apuros, tudo bem, vá em frente. Agora, se fizer desse artifício um hábito recorrente, correrá o risco de se transformar em personagem de um novo livro do Celso Arnaldo e disputar espaço nas prateleiras das livrariascom o dilmês.
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