
por Reinaldo Polito
Publicado em 23/06/2024, às 06h00
A maneira como falamos classifica os ouvintes. Quando nos dirigimos a alguém de baixa formação intelectual, temos a tendência de explicar cuidadosamente todas as informações para facilitar seu entendimento. Essa forma quase didática de falar, semelhante à que usamos ao conversar com crianças, classifica o interlocutor.
Ao contrário, quando aquele que nos ouve possui bom preparo, a comunicação perde essa característica simplificada, e nos expressamos sem a preocupação de explicar detalhadamente o que pretendemos dizer. Agimos assim porque sabemos que pessoas com boa formação nos compreendem com mais facilidade.
A importância de nos conscientizarmos de que a entonação é classificatória está justificada no risco permanente de que um pequeno deslize na avaliação feita sobre a formação e as características dos ouvintes pode trazer consequências negativas irreversíveis.
Segundo Mikhaïl Bakhtin, um dos mais importantes estudiosos da linguagem, a entonação é um lugar de memória acústica social. Isso significa que as pessoas são impregnadas de entonações desde os primeiros instantes da existência.
Estão presentes nessa tese de Bakhtin as músicas que ouvimos, os cursos que frequentamos, as imagens que observamos, assim como as influências das características das pessoas com as quais convivemos, que, por sua vez, foram formadas por outros indivíduos de seu relacionamento.
Enfim, toda a nossa vida participa dessa entonação que classifica o grupo social a que pertencemos e nos leva a usar uma forma própria de comunicar, de receber a mensagem e de interagir para determinar seu sentido.
Observe o comportamento de uma criança de aproximadamente quatro anos. Já nessa idade, nos primeiros aninhos de vida, ela aprende a classificar as pessoas e reage de acordo com as características de cada uma.
Com a tia que brinca e conta historinhas, ela se mostra afável; com a prima ranheta, que disputa seus brinquedos, ela se mostra resistente; com o avô carinhoso e paciente, ela tanto pode correr para o seu colo quanto fazer manha e pleitear presentes impossíveis.
Bem, esse aprendizado social ficará para sempre em sua memória, e quando estiver na idade adulta, suas atitudes ao se comunicar serão resultado dessa sua formação. Por isso, ao falar, ouvir, escrever e ler, a memória social interfere não apenas na determinação do conteúdo, como também na forma como a mensagem é transmitida.
Devemos, portanto, produzir e comunicar a mensagem considerando as características diversas dos interlocutores e entender que haverá êxito se soubermos nos comunicar levando em conta as expectativas que esses ouvintes têm com relação ao nosso desempenho, ao assunto abordado e à maneira como ele está sendo tratado.
Galbraith afirma que uma pessoa é avaliada por três fatores essenciais: pela sua personalidade, pela propriedade que possui e pela organização a que pertence. A partir desses indicadores, o ouvinte irá identificar o nível econômico-cultural-social, a formação, o poder e a autoridade.
Esses aspectos têm extraordinária influência no sentido da mensagem. A mesma informação, transmitida de idêntica maneira por pessoas com esses fatores distintos, será interpretada de forma totalmente diversa. A partir dessa análise, poderemos saber qual o comportamento e o tipo de comunicação que deveremos manter com as mais diferentes pessoas.
Não é raro, por exemplo, um executivo do escalão médio da empresa fazer uma apresentação para a diretoria e, por ter a posse da palavra diante do grupo, julgar equivocadamente que poderá se comportar como se fosse um de seus amigos íntimos. Essa atitude, provavelmente, não será bem-recebida.
Além desses aspectos, há uma norma da língua estabelecida para que as pessoas se comuniquem, mas a maneira como fazemos uso dessa norma é particular, própria de cada um de nós.
Seremos avaliados pela forma como construímos as frases, conjugamos os verbos e fazemos as concordâncias. As pessoas irão observar a maneira como usamos a língua para fazer uma avaliação a nosso respeito. Esse é um dos pontos mais importantes, senão o mais relevante, referente à entonação.
Portanto, a entonação atua como causa e consequência na produção, na interpretação e no sentido final da mensagem. Talvez seja um dos aspectos mais importantes da comunicação, porque, conforme foi possível demonstrar, todos eles se originam, são despertados e se completam a partir desse fenômeno.
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