Mesmo defendendo autonomia do Legislativo, presidente afirma que a tentativa de golpe exige consequências

Gabriela Nogueira Publicado em 11/12/2025, às 15h47
A Câmara dos Deputados se prepara para discutir uma proposta que reacende o debate sobre as consequências dos ataques à democracia ocorridos nos últimos anos. Sob a relatoria de Paulinho da Força, o projeto conhecido como PL da Dosimetria deixou de lado qualquer menção à anistia e passou a abordar uma redução das penas impostas pelo Supremo Tribunal Federal a condenados por tentativa de golpe e outras ações que atentam contra o Estado Democrático de Direito. A mudança na abordagem foi interpretada como uma tentativa de viabilizar politicamente um tema que vinha encontrando grande resistência.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que prefere não interferir nos rumos do Legislativo, mas deixou claro que pretende examinar cuidadosamente a possibilidade de veto caso o texto seja aprovado. A cautela do governo se explica pelo alcance das modificações previstas, que podem afetar diretamente o resultado de condenações já estabelecidas, inclusive a do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Durante a conversa, Lula foi enfático ao dizer que Bolsonaro precisa responder por seus atos e que não enfrentaria problemas judiciais se tivesse reconhecido o resultado das urnas. Para o presidente, as articulações atribuídas ao ex-mandatário representam riscos reais à estabilidade democrática e não devem ser minimizadas por meio de mudanças legislativas que enfraqueçam as punições.
O novo parecer apresentado por Paulinho da Força propõe ajustes relevantes no tratamento penal dos crimes contra a democracia. Entre eles está a unificação das penas previstas para golpe de Estado e para abolição violenta do Estado Democrático de Direito, que passariam a compartilhar uma faixa entre quatro e doze anos de prisão.
A proposta também reduz o tempo mínimo para progressão de regime, permitindo que condenados deixem o sistema fechado após cumprir um sexto da pena. Caso as regras entrem em vigor, advogados avaliam que o impacto sobre sentenças já determinadas pode ser significativo. No caso de Bolsonaro, a pena de mais de vinte e sete anos poderia cair para pouco mais de dois.
Se aprovado no Congresso, o texto ainda prevê a revisão de condenações já transitadas em julgado, aplicando automaticamente a nova forma de cálculo. A perspectiva reacendeu discussões sobre impunidade, proporcionalidade e o papel do Parlamento diante de crimes que desafiam o funcionamento das instituições.
Ao comentar o tema, Lula reiterou que as ações investigadas configuram ataques sérios à democracia brasileira. Disse também que acompanha o debate com atenção, embora mantenha a posição de que cabe ao Congresso deliberar. A evolução do projeto continuará sendo observada de perto por organizações da sociedade civil, juristas e parlamentares que consideram o momento decisivo para a consolidação de parâmetros firmes na defesa do Estado Democrático de Direito.
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