Família e testemunhas contestam versão da PM sobre confronto que resultou na morte de José Carlos da Rocha Sobrinho

Letícia Sales Publicado em 14/07/2026, às 13h28
Moradores do Jardim São Francisco, na zona leste de São Paulo, interditaram a Avenida dos Sertanistas na noite de segunda-feira (13) em protesto contra a morte do pastor José Carlos da Rocha Sobrinho, baleado durante abordagem de policiais da Companhia de Ações Especiais da Polícia Militar (Caep). A Polícia Militar chegou ao local pouco depois e dispersou o grupo.
Versão policial
De acordo com o boletim de ocorrência, José Carlos foi baleado por volta das 18h30 na Rua Vagner Araújo, no mesmo bairro. Os agentes faziam patrulhamento de rotina em uma área conhecida como destino de veículos roubados quando avistaram o carro dirigido pelo pastor.
Segundo o relato policial, foi dada ordem de parada, mas o motorista tentou fugir. Os policiais afirmam que, ao se aproximarem do veículo, José Carlos sacou uma arma, e os disparos foram efetuados na sequência. Ele foi atingido no pescoço, na nuca e na coxa direita, chegou a ser socorrido ao Pronto-Socorro de Sapopemba, mas não resistiu.
Os agentes também afirmam ter apreendido uma pistola com o pastor e registraram que ele tinha antecedentes criminais e seria integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Investigação em curso
Em nota, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) informou que investiga o caso. Segundo o boletim, os policiais estavam equipados com câmeras corporais, e o protocolo de uso dos equipamentos será apurado — as câmeras, no entanto, só teriam sido acionadas após os disparos, e a Polícia Civil ainda não teve acesso às imagens. O caso também é acompanhado pela Corregedoria da Polícia Militar, segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP).
O relato da família e de testemunhas
Parentes contestam a versão da PM. Segundo eles, José Carlos era pastor havia anos e tinha acabado de deixar uma irmã na igreja quando foi abordado, já no caminho de volta para casa.
Testemunhas também negam que tenha havido troca de tiros. Uma delas, ao ser questionada sobre a possibilidade de confronto, foi direta: "O cara é da igreja, irmão."
Moradores relataram ainda que, após os disparos, os policiais percorreram as casas da região em busca de câmeras de segurança e permaneceram no bairro até a madrugada. Questionada sobre o que os agentes procuravam, uma testemunha descreveu a cena: "Atrás de câmera. Eles entraram dentro dos matos da região procurando por algo, com lanterna. Depois, eles ficaram de casa em casa, com lanterna, olhando os batentes da casa, vendo se achavam algum tipo de câmera."
Contexto
O episódio ocorre dias depois de agentes da Rota terem matado seis pessoas durante investigação da tentativa de assassinato do tenente Ronickson Pimentel, ocorrida em 27 de junho. Hércules da Costa Siqueira, de 45 anos, apontado como suspeito de atirar no tenente, segue desaparecido — a SSP oferece recompensa de R$ 50 mil por informações sobre seu paradeiro.
Levantamento do Ministério Público aponta que a Polícia Militar matou 115 pessoas na capital paulista no primeiro semestre deste ano, o maior número para o período nos últimos cinco anos, com alta de 10% em relação a 2025 — média de uma morte a cada um dia e meio.
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