
por Guilherme Sartori
Publicado em 07/12/2025, às 08h21
A decisão de Jair Bolsonaro de lançar Flávio à Presidência não é um gesto familiar; é cálculo político de alto nível. A jogada recoloca Bolsonaro no centro da disputa e neutraliza a tentativa do centro de reduzi-lo a coadjuvante enquanto sua situação jurídica seria ditada por terceiros. Bolsonaro jamais aceitaria ser figurante do movimento que ele próprio construiu — muito menos apoiar um “consenso” fabricado por quem nunca moveu um dedo pela anistia que poderia devolver sua elegibilidade.
Nos bastidores, articulava-se um plano: encaixar Michelle Bolsonaro como vice de Tarcísio, entregar sua principal liderança feminina ao projeto do centro e deixar Jair preso, vulnerável e silenciado. Era a estratégia perfeita para capturar o eleitorado bolsonarista sem assumir o bolsonarismo. Bolsonaro não jogaria esse jogo. Ele conhece o preço de entregar patrimônio político em troca de promessas vazias.
Ao lançar Flávio, ele vira a mesa. A direita se reordena imediatamente, e a família retoma o controle da narrativa. Flávio assume um papel-chave: negociar a anistia. Esse movimento tem um fator oculto que poucos perceberam: se a anistia avançar, Flávio se fortalece — mas o verdadeiro beneficiado é o próprio Jair Bolsonaro, que recupera sua liberdade, a elegibilidade e volta das cinzas ao tabuleiro como líder incontestável da direita.
A jogada é dupla e precisa: abre caminho para o filho ser a estrela, mas preserva a porta para si mesmo, obrigando todos os atores políticos a recalcularem suas estratégias. Lula observa, mas não se anima com a possibilidade de enfrentar Flávio Bolsonaro na disputa pelo Planalto, pois sabe que, se Jair estiver elegível, tudo pode acontecer.
Resta a incógnita do STF, cuja reação é sempre imprevisível. Bolsonaro sabe que, no Brasil, segurança jurídica é variável política. De repente, tudo pode virar inconstitucional.
Ainda assim, sua jogada cumpre o objetivo central: retomar o protagonismo. Ele mostra que não será manipulado, descartado ou instrumentalizado. Sua carta na manga recoloca a pauta da anistia no centro do Congresso e reorganiza a direita ao seu redor.
Bolsonaro não está fora do jogo. Na verdade, o jogo acabou de começar.
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