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Conflitos na Ásia

Crise no Sri Lanka: presidente do país renuncia por e-mail depois de fugir para Cingapura

Os parlamentares escolherão novo líder após saída oficial de Gotabaya Rajapaksa

Presidente do Sri Lanka Gotabaya Rajapaksa - Imagem: Reprodução/Facebook
Presidente do Sri Lanka Gotabaya Rajapaksa - Imagem: Reprodução/Facebook

Publicado em 14/07/2022, às 18h21 Mateus Omena


O presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa, 73, apresentou sua carta de renúncia ao governo em um e-mail enviado ao presidente do parlamento, Mahinda Yapa Abeywardenena, nesta quinta-feira (14).

A informação foi confirmada mais cedo por um anúncio do gabinete do presidente.

Ele havia fugido para Cingapura, depois que o país foi tomado por protestos e diversos prédios públicos foram ocupados por manifestantes, em razão de uma grave crise econômica e política, informou a AFP.

O presidente do parlamento disse que recebeu um e-mail com a renúncia de Rajapaksa, mas acrescentou que "não podemos aceitar tal e-mail pelo valor nominal", informou a rede americana CNN.

"A legalidade disso precisa ser verificada. Foi compartilhado com as autoridades competentes para a verificação do mesmo", disse um representante do gabinete. "Assim que tivermos a confirmação oficial e for legalmente verificado, esperamos fazer uma declaração sobre isso amanhã [sexta-feira] de manhã."

O gabinete de Abeywardenena também declarou que espera receber uma cópia em papel da carta de renúncia.

Para alguns líderes, a ausência de uma carta formal levanta dúvidas sobre as intenções do presidente aparentemente autoexilado, que anteriormente nomeou o primeiro-ministro como presidente interino depois de deixar o país.

Gotabaya Rajapaksa estava sendo bastante pressionado pela sociedade e por políticos em seu entorno. A situação se tornou bastante crítica depois que manifestantes furiosos invadiram sua residência oficial e exigiram a sua renúncia do governo.

Pouco depois de Rajapaksa deixar o Sri Lanka, manifestantes invadiram o escritório do presidente em exercício Ranil Wickremesinghe para exigir sua remoção. Elerespondeu chamando um toque de recolher em todo o país durante a noite.

Na manhã desta quinta-feira (14), Wickremesinghe concedeu às forças armadas poderes especiais de prisão e deu aos militares o aval para o uso da força se necessário, para dissipar os protestos e garantir a ordem pública, disse o porta-voz do Exército, Brigadeiro Nilantha Premaratne, em um discurso transmitido em rede nacional.

“Em vista da escalada de atos violentos, os manifestantes com intenção de prejudicar as forças armadas ou bens públicos são seriamente instados a desistir de todas as formas de violência imediatamente ou estar preparados para enfrentar as consequências, pois os membros das forças armadas estão legitimamente autorizados a exercer a força”, declarou Premaratne.

De acordo com Abeywardena, o parlamento do Sri Lanka não se reunirá novamente até que Rajapaksa apresente formalmente sua carta de renúncia.

Anteriormente, esperava-se que os parlamentares abrissem o processo de escolha de um novo presidente neste sábado (16). Mas, isso por enquanto está fora de questão até que Rajapaksa deixe oficialmente seu cargo.

Novos protestos

Apesar do novo choque para o poder executivo, muitos manifestantes prometeram continuar a onda de protestos pelas ruas até que Abeywardena e Rajapaksa abandonem o governo.

Mesmo assim, a agitação que tomou conta de muitas cidades do Sri Lanka ao longo da semana, especialmente da capital Colombo, cessou em vários locais. Um representante do Movimento de Protesto Popular anunciou hoje (14) que todos os prédios públicos ocupados serão devolvidos às autoridades, com exceção do edifício presidencial.

"Queremos afirmar que este é um protesto pacífico e não temos intenção de recorrer a qualquer forma de violência", disse Swasthika Arulingam, porta-voz do movimento Araguaya à imprensa local. "Este sempre foi e continuará sendo um movimento pacífico."

Mas, em outras localidades do país os conflitos persistem. A força policial do Sri Lanka disse que um policial ficou gravemente ferido durante os protestos e foi encaminhado ao hospital. Um sargento do exército também foi ferido em uma operação, acrescentou.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse nas redes sociais nesta quinta-feira (14) estar acompanhando os desdobramentos da crise no Sri Lanka e pediu uma "transição pacífica e democrática" na política.

"É importante que as causas profundas do conflito e as queixas dos manifestantes sejam abordadas", escreveu no Twitter. "Peço a todos os líderes do partido que adotem o espírito de compromisso para uma transição pacífica e democrática."

Grande parte da situação foi provocada por uma grave crise econômica, que levou o país a declarar moratória de sua dívida.

A falta de divisas provocou uma escassez de combustível que deixou o país praticamente paralisado. Em muitas cidades, os veículos encontram-se abandonados pelas ruas e muitos trabalhadores recorreram ao uso de bicicletas. Já outras pessoas alegaram sofrer de fome ou insegurança alimentar devido à instabilidade econômica.

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