Em um breve pronunciamento na televisão estatal, Mohammad al-Bashir revelou que assume o cargo de "primeiro-ministro da Síria" e comandará o país até 1º de março de 2025, após cinco décadas de domínio da família Assad

William Oliveira Publicado em 11/12/2024, às 12h12
Na última terça-feira (10), os insurgentes sírios que derrubaram o regime de Bashar al-Assad anunciaram a nomeação do novo chefe de governo, que assumirá a transição de poder na Síria após 13 anos de guerra civil e cinco décadas de domínio da família Assad.
Em um breve pronunciamento na televisão estatal, Mohammad al-Bashir revelou que assume o cargo de "primeiro-ministro da Síria" e comandará o país até 1º de março de 2025. A dúvida permanece sobre a realização de eleições livres após essa data, mas, por enquanto, o foco está na transição. Durante o anúncio, al-Bashir destacou uma reunião de gabinete, na qual estiveram presentes membros do governo rebelde de Idlib, da região anteriormente controlada pelos opositores de Assad, além de representantes do regime deposto. O tema principal da reunião foi a transferência de documentos e instituições para o novo governo.
A cena foi simbólica: al-Bashir se posicionou diante de duas bandeiras distintas. Uma delas, verde, preta e branca, com três estrelas vermelhas, é associada aos oponentes de Assad; a outra, branca com o juramento islâmico, é frequentemente utilizada por grupos islâmicos sunitas.
Em entrevista à Al Jazeera, al-Bashir expressou sua esperança de que o país vivencie um período de "estabilidade e calma". Formado em engenharia e direito islâmico e civil, ele comandava o "governo de salvação", criado pelos insurgentes para administrar o reduto rebelde de Idlib. Antes disso, trabalhou no ministério de ajuda humanitária do grupo rebelde e também na empresa estatal de gás síria.
Com fortes laços com o grupo radical HTS (Hayat Tahrir al Sham), ex-braço da Al-Qaeda na Síria, al-Bashir também tem uma relação próxima com Abu Mohammed al-Jolani, líder do HTS, que recentemente se apresenta como um estadista pragmático desde a queda de Assad. Al-Jolani, conhecido agora como Ahmed al-Sharaa, comprometeu-se a responsabilizar os "criminosos, assassinos e oficiais de segurança" que participaram da repressão e tortura do povo sírio, e liderou as conversas com o primeiro-ministro anterior, Mohammed al-Jalali, para formar o novo governo.
A nomeação de al-Bashir marca o fim de 50 anos de controle da família Assad na Síria e inaugura uma nova fase, repleta de incertezas, com a reconstrução de um país devastado por uma guerra que já matou 500 mil pessoas e forçou milhões a fugirem de suas casas. No entanto, o novo governo interino enfrentará desafios imediatos. Nesta terça-feira, Israel intensificou suas ações no sudoeste da Síria, avançando por terra e destruindo a frota de navios de guerra sírios. Israel, no entanto, afirmou que o objetivo de suas tropas é criar uma "zona de proteção" contra o "terrorismo", e não avançar até Damasco.
Em meio ao turbilhão, o enviado da ONU à Síria, Geir Pedersen, fez um comentário conciliatório, minimizando o rótulo de "organização terrorista" atribuído ao HTS. Segundo Pedersen, o grupo tem enviado sinais positivos ao povo sírio, de unidade e inclusão. Em Damasco, sinais de normalidade começaram a surgir com a reabertura de bancos, lojas e centros comerciais, um indicativo de que a Síria, após anos de guerra, tenta se reerguer.
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