Marcus Vinicius de Freitas

Redação Publicado em 07/07/2021, às 00h00 - Atualizado às 10h32
Marcus Vinicius de Freitas
Após o ataque às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, no fatídico 11 de setembro de 2001, o governo do Presidente George W. Bush iniciou duas guerras: uma necessária e uma equivocada. Sem dúvida, a guerra equivocada foi a do Iraque, liderada pelo falecido ex-Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, baseada no falso argumento de que o ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, que seriam utilizadas contra o Ocidente. Hussein, que no passado fora um importante aliado dos Estados Unidos contra o Irã, foi transformado num vilão sanguinário, com o objetivo de escravizar a sua população com seu autoritarismo. A invasão teria como objetivo não somente destruir o arsenal existente mas também instaurar no Iraque o ideário democrático e liberar o povo do tiranismo de Hussein. A verdade é que, depois da invasão e da constatação do enorme engodo, o Iraque não possuía as referidas armas. Saddam, que tampouco era santo, foi defenestrado do poder, preso, julgado e condenado à morte. No entanto, o famoso passe de mágica, em que o país se transformaria numa democracia moderna, jamais ocorreu. A situação política do país segue instável e enfrenta o duro desafio da reconstrução com o crescimento de forças internas desestabilizadoras.
A guerra necessária do Afeganistão, apoiada inclusive pelos países-membro da Organização do Atlântico Norte (OTAN), com base no artigo 5º de seu tratado, que afirma que o ataque a um país-membro é considerado um ataque a todos, gerando responsabilidade coletiva de ação, contou com o apoio internacional, principalmente pelo fato de o Afeganistão ter sido utilizado como importante campo de treinamento da Al-Qaeda, a organização terrorista que arquitetou os ataques de 11 de Setembro. Como resultado disso, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, sob a promessa de livrar o país do Talibã, construir a democracia e enterrar, de vez, a presença da Al Qaeda na região. Apesar da legitimação dada pela opinião pública internacional à guerra necessária, houve uma quantidade de abusos no combate que, de fato, passados 20 anos, somente alcançaram um sucesso muito superficial. O Afeganistão de hoje, que se aproxima da saída das tropas norte-americanas, conforme determinado pelo presidente Joe Biden, vive um recrudescimento do Talibã que, paulatinamente, vai ganhando mais poder e que, por incrível que possa parecer, é visto pelos cidadãos locais como um elemento importante para a manutenção da estabilidade e da paz.
Os resultados da guerra, no entanto, não poderiam ter sido piores. Segundo levantamento da Brown University, a guerra teve um custo financeiro de US$ 2.261 trilhão. O desastre humano resultou na morte, desde 2001, de 47.245 civis, entre 66.000 e 69.000 soldados afegãos, e 2.442 soldados norte-americanos. Nessa tragédia não está computado o enorme impacto econômico, social e humano de uma longa guerra que, pior que uma vitória de Pirro para os Estados Unidos, se revelou verdadeiramente inútil. O fato é que, paulatinamente, à medida que os Estados Unidos seguem em seu processo de desengajamento no Afeganistão, a situação no país retorna ao estado anterior, com o o Talibã retomando o poder e dominando várias regiões do país. A situação é preocupante porque inexiste o compromisso real, por parte do Talibã, de evitar aquilo que fez no passado, apoiando um ressurgimento mais intenso da Al Qaeda e servindo, inclusive, como plataforma ao capengo Estado Islâmico, duramente combatido, que perdeu muito de seu poder de fogo em razão da intervenção militar em território anteriormente controlado. A situação é preocupante e poderá levar, nos próximos anos, a um recrudescimento do terrorismo global. E, apesar dos imensos gastos ocorridos, o Afeganistão de hoje não está muito melhor do que aquele anterior a 2001.
É importante reconhecer que, como regra, toda intervenção militar num país está baseada num princípio importante: a potência intervencionista, ao quebrar a ordem institucional existente – ainda que ruim – assume a responsabilidade integral pela recuperação institucional do país invadido. Quem quebra vira dono. O fato de o Ocidente haver adotado, em muitas ocasiões, uma postura de abandono desta responsabilidade em situações complexas, tem levado a um renovado clima de instabilidade enorme em várias partes do mundo. Líbia, Iraque, Somália e, a partir de agora, o Afeganistão são alguns destes exemplos. O resultado é que, apesar de o mundo não ter enfrentado um novo 11 de Setembro, reiniciamos a trajetória rumo a um cenário cada vez mais instável. É por esse motivo que pensar no dia seguinte é primordial em qualquer ação no campo internacional. Resta saber se o Afeganistão representará para os Estados Unidos o mesmo que a crise do Canal de Suez significou para o Reino Unido: o declínio.
Marcus Vinicius De Freitas, Advogado e Professor Visitante, Universidade de Relações Exteriores da China

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