
por Marcus Vinícius de Freitas
Publicado em 20/05/2026, às 09h41
A visita do presidente Vladimir Putin a Beijing, poucos dias depois da de Donald Trump, ultrapassa largamente o simbolismo habitual de encontros sucessivos entre grandes líderes. Observada em conjunto com a presença de representantes iranianos na capital chinesa na semana anterior à visita de Trump, a sequência constitui um retrato eloquente do momento geopolítico atual: em poucos dias, alguns dos principais protagonistas das crises e transformações internacionais passaram pela mesma cidade. Não se trata de coincidência diplomática.
Durante décadas, o sistema internacional habituou-se a imaginar Washington como centro inevitável da gravidade política global. Mesmo quando outras economias cresciam, a percepção de que as decisões fundamentais continuavam a convergir para os Estados Unidos perdurava. O que se observa agora não é necessariamente o desaparecimento dessa centralidade, mas sim o surgimento de algo novo: uma distribuição mais plural de pontos de influência internacional.
Nesse contexto, Beijing ocupa uma posição singular. A China tornou-se suficientemente grande para dialogar simultaneamente com atores que mantêm entre si relações de competição, rivalidade ou mesmo conflito aberto. Essa posição não deriva apenas da dimensão da sua economia ou da escala da sua indústria. Resulta sobretudo da construção paciente de previsibilidade estratégica e da percepção de que Beijing tende a privilegiar a continuidade, a estabilidade e a margem de negociação.
É precisamente aqui que a visita de Putin ganha significado histórico. Esta não é uma relação construída por conveniência momentânea nem por circunstâncias decorrentes da guerra na Ucrânia. Segundo dados oficiais e registros diplomáticos recentes, Xi Jinping e Vladimir Putin já se encontraram mais de quarenta vezes, em um histórico que abrange encontros bilaterais, cúpulas dos BRICS, fóruns multilaterais, eventos internacionais e reuniões estratégicas reservadas.
Mais revelador ainda: a Rússia tornou-se o destino internacional mais frequente de Xi Jinping, que realizou, em 2025, a sua 11ª visita oficial a Moscou. Em sentido inverso, Vladimir Putin já realizou mais de vinte viagens à China ao longo da sua permanência no poder. Em relações internacionais, a frequência não substitui a estratégia — mas revela prioridade.
Naturalmente, a relação sino-russa apresenta assimetrias evidentes. A economia chinesa é significativamente maior, o comércio bilateral expandiu-se rapidamente e Moscou tornou-se mais dependente do mercado e da capacidade industrial chinesa após anos de sanções ocidentais. Ademais, em muitas situações, a Rússia representa um custo reputacional para Beijing. Mas interpretar essa dinâmica apenas como subordinação seria uma redução excessiva de uma realidade mais complexa.
A Rússia permanece uma potência energética, militar e diplomática de primeira grandeza. A China continua dependente da estabilidade energética, da profundidade estratégica eurasiática e da existência de parceiros capazes de contribuir para uma ordem internacional mais multipolar. Existe complementaridade. E prudência.
Talvez o aspecto mais interessante desta sequência — delegação iraniana, visita de Trump e chegada de Putin — seja precisamente mostrar que Beijing procura apresentar-se não como substituto de uma hegemonia, mas como elemento balanceador de uma transição.
A Guerra Fria ensinou o mundo a pensar em blocos e alinhamentos exclusivos. A lógica emergente parece diferente. A China fala com Washington sem romper com Moscou. Mantém relações energéticas com o Golfo enquanto aprofunda laços com o Irã. Expande os BRICS sem abandonar o comércio com a Europa e os Estados Unidos. Essa elasticidade estratégica tornou-se uma das fontes centrais de sua influência.
Para muitos países do Sul Global, Beijing passou a representar algo que vai além de financiamento ou do comércio. Tornou-se possível ampliar a autonomia sem necessariamente exigir ruptura. Não porque esses países desejem substituir uma dependência por outra, mas porque procuram ampliar as opções.
Num momento de elevada fragmentação internacional, diferentes polos de poder consideram útil passar por Beijing. Talvez esta seja a mudança mais profunda da ordem internacional contemporânea. Durante grande parte do século XX, o poder foi medido pela capacidade de fazer os outros escolherem lados. O século XXI será lembrado por outro critério: a capacidade de continuar relevante a todos os lados ao mesmo tempo. Ao que tudo indica, a China vem ocupando precisamente esse lugar.

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