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COLUNA

Beijing Decide, Washington Reage

Imagem: Reprodução/Freepik
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Marcus Vinicius de Freitas

por Marcus Vinicius de Freitas

Publicado em 06/05/2026, às 09h31


Pouco se sabe, em termos concretos, sobre o que emergirá do encontro previsto entre Xi Jinping e Donald Trump em Beijing neste mês de maio. A própria natureza do diálogo sino-americano contemporâneo — mais transacional do que estrutural — recomenda cautela analítica. Ainda assim, é possível identificar tendências, assimetrias e, sobretudo, riscos estratégicos que não podem ser ignorados.

O contexto em que Washington se aproxima de Beijing é particularmente revelador. Trump chega a este encontro menos fortalecido do que sugere sua retórica. Internamente, enfrenta pressões decorrentes de um ambiente econômico mais adverso, marcado por tensões inflacionárias e instabilidade política, com uma perspectiva crescente de tornar-se um pato manco após as eleições de novembro. Externamente, o cenário é ainda mais complexo: o conflito envolvendo o Irã permanece longe de qualquer desfecho que possa ser apresentado como uma vitória inequívoca, enquanto a crise no Estreito de Ormuz elevou os custos energéticos globais e expôs limitações na capacidade de controle americano sobre os fluxos estratégicos de petróleo.

Além disso, a recente contenção institucional ao uso indiscriminado de tarifas pela Suprema Corte — instrumento central da estratégia trumpista — reduziu a margem de manobra de Washington no campo comercial. Ainda que Trump busque projetar força, o encontro em Beijing ocorre em um momento em que os Estados Unidos dispõem de menos instrumentos de coerção do que no passado recente.

Nesse contexto, a China se apresenta não apenas como contraparte, mas também como polo de estabilidade relativa. Beijing tem sinalizado disposição para negociar, sobretudo em áreas como o comércio agrícola e as cadeias produtivas, ao mesmo tempo em que fortalece seus próprios instrumentos de proteção econômica e tecnológica. A assimetria é clara: enquanto Washington busca resultados que possam ser convertidos em capital político doméstico, Beijing negocia a partir de uma posição de maior previsibilidade estratégica.

É razoável supor, portanto, que Trump buscará extrair do encontro anúncios positivos — especialmente no campo comercial — que possam ser apresentados como vitórias. A retomada de compras chinesas de produtos agrícolas americanos, por exemplo, surge como um dos possíveis eixos de convergência. No entanto, tais concessões não ocorrerão no vazio: terão efeitos diretos sobre terceiros países, entre eles o Brasil.

E é precisamente aqui que reside o ponto central de atenção. O Brasil não é um espectador periférico desse processo. Como membro dos BRICS e como economia-chave do Sul Global, o país está diretamente implicado na reconfiguração em curso da ordem internacional.

Três dimensões exigem vigilância estratégica imediata.

A primeira é a dimensão agrícola. Qualquer reaproximação comercial entre os Estados Unidos e a China tende a impactar diretamente o espaço conquistado pelo agronegócio brasileiro no mercado chinês. Concessões nesse campo podem significar a redistribuição de fluxos comerciais, com efeitos relevantes sobre a balança comercial brasileira.

A segunda dimensão é a tecnológica, em particular a inteligência artificial. O próprio Trump já indicou que pretende enfatizar a liderança americana nesse setor no encontro. O que está em jogo não é apenas a competitividade econômica, mas também a definição de padrões, normas e regimes de governança tecnológica. O Brasil, que ainda busca consolidar sua estratégia digital, não pode se ausentar desse debate.

A terceira dimensão é a geopolítica e a normativa. O discurso, recorrente na tradição americana, de que “a América é para os americanos” ressurge agora sob nova roupagem, com implicações para as cadeias produtivas, os fluxos de investimento e os padrões regulatórios. Dependendo dos entendimentos alcançados entre Washington e Beijing, poderá haver uma reorganização tácita de esferas de influência, com impactos diretos sobre a autonomia estratégica de países intermediários.

Diante desse cenário, impõe-se uma conclusão inequívoca: a política externa brasileira deve observar este encontro não com curiosidade, mas com método. Trata-se de uma política de Estado, não de governo. O Brasil precisa extrair sinais, antecipar movimentos e, sobretudo, posicionar-se com clareza em um ambiente internacional cada vez mais competitivo e menos permissivo à ambiguidade.

O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump pode, em última instância, não resultar em grandes anúncios. Mas seus desdobramentos ajudarão a moldar o ambiente no qual o Brasil terá de operar. E, nesse mundo em transição, não há espaço para distração estratégica.


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