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COLUNA

Trump e a Palestina: Perpetuação de Erros

A importância do reconhecimento mútuo e da autodeterminação para a construção de uma paz duradoura entre israelenses e palestinos. - Imagem: Reprodução | PLANET LABS
A importância do reconhecimento mútuo e da autodeterminação para a construção de uma paz duradoura entre israelenses e palestinos. - Imagem: Reprodução | PLANET LABS
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 19/02/2025, às 08h37


A Faixa de Gaza, uma estreita faixa de terra banhada pelo Mar Mediterrâneo, consolidou-se como um dos epicentros mais dolorosos do conflito israelense-palestino. Mais do que uma disputa territorial, a tragédia de Gaza simboliza décadas de sofrimento humano, deslocamento forçado, genocídio, violência sistêmica e uma crise humanitária de proporções catastróficas.  

Em 2020, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou o chamado “Acordo do Século”, uma proposta de paz que, longe de equilibrar os interesses das partes, favoreceu amplamente Israel, reforçando a agenda do então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e ignorando os direitos fundamentais dos palestinos. A mais recente proposta de Trump, que sugere transformar Gaza em uma “Linda Riviera” sob administração estadunidense, repete os mesmos erros estratégicos ao desconsiderar as complexidades históricas e políticas do conflito.  

O conflito entre israelenses e palestinos remonta ao final do século XIX, com o surgimento do movimento sionista e a imigração judaica para a Palestina, então sob domínio otomano. Após a Primeira Guerra Mundial, a administração britânica na região exacerbou as tensões entre árabes e judeus. Em 1948, a criação do Estado de Israel desencadeou a primeira guerra árabe-israelense, resultando no deslocamento de centenas de milhares de palestinos.  

A Guerra dos Seis Dias, em 1967, consolidou a ocupação israelense da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e de Jerusalém Oriental, territórios que permanecem sob disputa até hoje. Desde aí, Gaza tornou-se um símbolo do impasse político e humanitário, submetida a bloqueios econômicos, restrições severas e um ciclo interminável de violência.  

Em janeiro de 2020, Donald Trump anunciou seu plano de paz para o Oriente Médio, estruturado em três eixos principais: (ii)Reconhecimento de Jerusalém como capital indivisível de Israel; (ii) Anexação de partes da Cisjordânia por Israel;  e (iii) Criação de um Estado palestino fragmentado e desmilitarizado, sem controle efetivo sobre suas fronteiras ou espaço aéreo.  

O plano foi amplamente interpretado como um endosso à agenda expansionista de Netanyahu, que enfrentava desafios políticos internos e acusações de corrupção. Para o líder israelense, o “Acordo do Século” representava uma oportunidade de consolidar o domínio sobre os territórios palestinos ocupados e fortalecer sua base de apoio político.  

A Autoridade Palestina rejeitou categoricamente a proposta, classificando-a como uma tentativa de legitimar a ocupação israelense e negar os direitos históricos dos palestinos. Além disso, o plano contrariava resoluções da ONU e princípios do direito internacional, que condenam a anexação unilateral de territórios. 

A mais recente proposta de Trump para Gaza difere significativamente do “Acordo do Século”. Enquanto o plano anterior focava na anexação de territórios e no reconhecimento de Jerusalém como capital israelense, a nova ideia sugere a realocação dos mais de 2 milhões de palestinos de Gaza para países vizinhos, como Egito e Jordânia, com o objetivo de reconstruir a região sob controle dos Estados Unidos.  

Essa proposta, além de ignorar a realidade demográfica e política da região, desconsidera o direito à autodeterminação dos palestinos e a complexidade humanitária do conflito. A ideia de transformar Gaza em uma “Riviera” soa como uma tentativa de apagar décadas de história e sofrimento, sem abordar as causas estruturais do problema.  

A Faixa de Gaza abriga mais de dois milhões de palestinos em uma das áreas mais densamente povoadas do mundo. Desde 2007, a região está submetida a um bloqueio imposto por Israel e Egito, que restringe severamente a entrada de bens essenciais, combustível e ajuda humanitária. Gaza enfrenta problemas seríssimos: uma infraestrutura destruída, educação inexistente, insegurança alimentar e o incentivo a tornar-se uma fábrica de terroristas.

Os frequentes confrontos entre Israel e grupos armados palestinos, como o Hamas, agravam a crise humanitária. Operações militares israelenses, resultaram em milhares de mortes, predominantemente civis, além da destruição de infraestruturas essenciais. Por outro lado, ataques de foguetes lançados por militantes palestinos contra cidades israelenses perpetuam o ciclo de violência e justificam retaliações militares.  Ao ignorar as realidades históricas, políticas e humanitárias, as propostas de Trump apenas aprofundam o sentimento de desesperança e revolta entre os palestinos, inviabilizando qualquer possibilidade de diálogo. A resolução do conflito exige o reconhecimento dos direitos e aspirações de ambos os povos. A solução de dois Estados, amplamente defendida pela comunidade internacional, continua sendo a única opção viável para uma paz duradoura.  

A tragédia de Gaza ilustra o alto custo humano de um conflito prolongado e a ineficácia de propostas que desconsideram os direitos fundamentais dos palestinos. Ao privilegiar os interesses de Israel e marginalizar a Palestina, Trump não apenas aprofunda as desigualdades, mas também inviabiliza o caminho para uma solução justa e equilibrada.  

Como afirmou Confúcio, “Aquele que deseja garantir o bem dos outros já assegurou o seu próprio; aquele que deseja que os outros se desenvolvam já garantiu o seu próprio desenvolvimento.” A resolução do conflito israelo-palestino exige exatamente esse princípio: um compromisso genuíno com a justiça e o reconhecimento mútuo dos direitos de ambos os povos.

Uma paz sustentável exige um compromisso genuíno com o direito internacional, o respeito à autodeterminação dos povos e a implementação de uma solução de dois Estados viável e justa. Somente quando israelenses e palestinos puderem coexistir com segurança, dignidade e soberania, será possível vislumbrar um futuro diferente para Gaza e para toda a região.