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COLUNA

O Memorando de Islamabad e os Limites do Poder

Imagem: Reprodução/Redes Sociais
Imagem: Reprodução/Redes Sociais
Marcus Vinícius de Freitas

por Marcus Vinícius de Freitas

Publicado em 24/06/2026, às 08h00


Durante décadas, os Estados Unidos acostumaram-se a associar poder à capacidade de impor sua vontade. A combinação de superioridade militar, peso econômico, liderança tecnológica e influência diplomática criou a percepção de que, cedo ou tarde, qualquer adversário acabaria cedendo à pressão americana. A crise com o Irã, porém, voltou a demonstrar que a realidade internacional é mais complexa.

O memorando assinado entre Washington e Teerã merece atenção não apenas pelos seus quatorze pontos ou pelas medidas práticas que estabelece. Seu verdadeiro significado está no que revela sobre a natureza do poder no século XXI. Mais do que um acordo diplomático, ele representa o reconhecimento de que há uma diferença fundamental entre possuir poder e convertê-lo em resultados políticos duradouros.

Desde o início, a estratégia israelo-americana baseou-se numa lógica relativamente simples. Sanções econômicas, isolamento financeiro, pressão diplomática e demonstrações de força deveriam elevar os custos para o Irã a um ponto em que a liderança iraniana não teria uma alternativa senão aceitar os termos apresentados por Washington e Tel Aviv. Era a versão internacional do que Donald Trump sempre chamou de “maximum pressure”.

A teoria parecia sólida. Afinal, os Estados Unidos continuam sendo a maior economia do planeta, possuem as forças armadas mais sofisticadas da história e lideram uma extensa rede de alianças. O Irã, por outro lado, enfrentou décadas de sanções, restrições comerciais, dificuldades financeiras e isolamento internacional. Em condições normais, a assimetria entre os dois países sugeriria um desfecho relativamente previsível.

A história, contudo, raramente recompensa previsões lineares. Apesar das dificuldades econômicas e dos custos internos significativos, o Estado iraniano permaneceu funcional, preservou sua capacidade de resposta e evitou o colapso que muitos analistas consideravam inevitável. Mais importante ainda, não houve mudança de regime nem capitulação política, como diversos setores em Washington e Tel Aviv esperavam alcançar.

É precisamente nesse ponto que o memorando se torna relevante. O documento não representa uma vitória inequívoca dos Estados Unidos, tampouco pode ser interpretado como um triunfo iraniano. Ele reflete algo muito mais interessante: o reconhecimento mútuo de que ambos os lados encontraram limites ao que poderiam alcançar por meio da coerção.

Ao longo da história, as grandes potências frequentemente descobriram que superioridade militar não garante sucesso político. Os Estados Unidos venceram inúmeras batalhas no Vietnã, mas não conseguiram vencer a guerra. A União Soviética enfrentou uma situação semelhante no Afeganistão. Décadas depois, Washington enfrentaria a mesma realidade naquele país. Em todos esses casos, o problema não foi a falta de recursos ou de capacidade militar, mas a dificuldade de transformar força em resultados políticos sustentáveis.

O caso iraniano sugere que estamos diante de uma transformação ainda mais profunda. Uma variável frequentemente ignorada passou a desempenhar um papel central: a resiliência. A capacidade de absorver custos, suportar pressões prolongadas e preservar a coesão interna tornou-se uma forma de poder tão relevante quanto tanques, mísseis ou sanções econômicas. O Irã não derrotou os Estados Unidos. Mas demonstrou que impedir a vitória do adversário também pode constituir uma forma de sucesso estratégico.

Talvez essa seja a principal lição que emerge do memorando. Trump descobriu, como outros líderes americanos antes dele, que destruir capacidades é relativamente simples. Muito mais difícil é transformar essa destruição em uma nova realidade política favorável. A força continua sendo um instrumento indispensável da política internacional. O que mudou foi a crença de que ela, sozinha, é capaz de resolver problemas complexos.

O século XXI está revelando um cenário em que a capacidade de resistência se tornou tão importante quanto a de ataque. Nesse contexto, o memorando entre Washington e Teerã – e o isolamento de Israel – talvez seja lembrado menos pelos seus quatorze pontos e mais pela lição estratégica que simboliza: até mesmo as maiores potências do mundo estão descobrindo que existem limites ao poder quando ele encontra, pela frente, sociedades dispostas a resistir.


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