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COLUNA

O trinômio do desenvolvimento

Imagem: Reprodução/Magnific
Imagem: Reprodução/Magnific
Marcus Vinícius de Freitas

por Marcus Vinícius de Freitas

Publicado em 17/06/2026, às 08h03


Existe um erro recorrente quando se tenta explicar a ascensão da China: atribuir seu sucesso apenas ao tamanho de seu mercado, ao baixo custo da mão de obra, ao regime político ou ao planejamento econômico. Esses fatores tiveram importância, mas não explicam, por si sós, a transformação de um país que retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza e passou a disputar a liderança tecnológica mundial. O verdadeiro alicerce desse processo repousa sobre um trinômio muito mais profundo: educação, segurança e estabilidade.

Mais do que políticas públicas isoladas, esses três elementos formam um ecossistema indispensável ao desenvolvimento. A ausência de qualquer um deles compromete os demais. Educação sem segurança gera fuga de talentos e reduz a inovação. Segurança sem estabilidade afasta investimentos. Estabilidade sem educação produz estagnação. É justamente a interação entre esses pilares que cria as condições para um crescimento sustentável.

O primeiro deles é a educação. A China compreendeu que sua maior riqueza não seria suas fábricas, mas sim sua capacidade de formar pessoas. Investiu em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, fortaleceu a escola pública e as universidades, estimulou a pesquisa e transformou o conhecimento em um ativo estratégico nacional. Não se trata apenas de preparar mão de obra qualificada, mas de criar uma sociedade capaz de inovar, desenvolver tecnologias próprias e competir nos setores de maior valor agregado.

O Brasil ainda mede o sucesso educacional pelo acesso, quando deveria concentrar esforços na qualidade e na preparação para a economia do futuro. Inteligência artificial, ciência de dados, robótica, programação e pensamento crítico precisam ocupar o centro da política pública. O maior programa social do século XXI será a formação de brasileiros capazes de competir intelectualmente em escala global.

O segundo pilar é a segurança, entendida em seu sentido mais amplo. O desenvolvimento depende de um Estado capaz de exercer plenamente sua autoridade sobre todo o território nacional. O Estado moderno detém o monopólio legítimo da violência. Quando organizações criminosas controlam comunidades, impõem regras próprias e desafiam as instituições, não é apenas a criminalidade que cresce; é a própria credibilidade do Estado que se enfraquece.

Nesse contexto, a segurança deixa de ser apenas uma questão policial para tornar-se uma política econômica. Nenhum investidor aplica recursos onde os contratos não são plenamente protegidos ou onde a autoridade pública divide espaço com o crime organizado. Nenhum jovem desenvolve plenamente seu potencial quando a ilegalidade oferece perspectivas mais concretas do que o mercado formal. Recuperar o controle integral do território talvez seja o maior programa de desenvolvimento que o Brasil possa implementar. Há ainda um efeito frequentemente ignorado: o custo reputacional da insegurança. Em um mundo conectado, a imagem internacional de um país influencia decisões de investimento, a localização de empresas e a atração de talentos. Quando o Brasil é associado à violência e à incapacidade de controlar partes de seu território, sua competitividade diminui. A insegurança transforma-se em um imposto invisível que encarece os negócios e reduz as oportunidades.

O turismo talvez seja o exemplo mais evidente. O Brasil possui uma das maiores riquezas naturais e culturais do planeta, mas perde bilhões de dólares porque muitos visitantes veem o destino como arriscado. Cada episódio de violência amplamente divulgado reforça uma percepção negativa que afasta turistas, reduz as receitas e limita os investimentos. Fortalecer a segurança também significa fortalecer a marca Brasil no mundo.

O terceiro elemento é a estabilidade. Em um cenário de rápidas transformações tecnológicas, países bem-sucedidos são aqueles capazes de formular políticas que sobrevivem aos ciclos eleitorais. A China consolidou uma cultura de planejamento de longo prazo que assegura a continuidade de projetos estratégicos de infraestrutura, inovação e desenvolvimento industrial. No Brasil, frequentemente se reinicia o planejamento a cada mudança de governo. Obras são interrompidas, prioridades são alteradas e políticas públicas tornam-se reféns do calendário eleitoral. O resultado é uma sensação permanente de improviso que dificulta investimentos e reduz nossa competitividade.

A experiência chinesa demonstra que o desenvolvimento não nasce do acaso nem de soluções improvisadas.  A prosperidade do século XXI dependerá menos da riqueza que possuímos hoje e muito mais da capacidade de educar nossa população, assegurar o monopólio legítimo da força pelo Estado e garantir estabilidade institucional para que o País inspire confiança dentro e fora de suas fronteiras.


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