A peça 'Seis Personagens à Procura de um Autor' e a defesa de Paulo Autran sobre a crítica teatral e suas provocações

por Reinaldo Polito
Publicado em 28/06/2026, às 11h46
Entrei no teatro à procura de Paulo Autran. Saí de lá acompanhado por Luigi Pirandello.
Foi assim que conheci esse escritor extraordinário. Certa noite, em 1991, sem ter o que fazer, procurei algum lugar para me divertir. Descobri que Paulo Autran estava atuando e dirigindo uma peça da qual já havia participado 40 anos antes, em 1951.
Fui ver um ator. Acabei encontrando seis personagens à procura de um autor.
Neste 28 de junho, celebram-se 159 anos do nascimento de Luigi Pirandello. Ele nasceu em 1867, em Agrigento, na Sicília. Foi dramaturgo, poeta e romancista italiano. Teve como marca a originalidade e uma forma peculiar de humor, muitas vezes atravessada por ironia, desconcerto e inquietação. Essas características contribuíram para que fosse considerado um dos grandes renovadores do teatro moderno.
A peça a que assisti naquela noite era uma de suas obras-primas: Seis personagens à procura de um autor. Trata-se de uma história curiosa, instigante e muito criativa.
O ensaio de uma companhia de teatro é interrompido por seis personagens abandonados pelo seu autor. Eles exigem que suas histórias de vida sejam interpretadas. Dá para imaginar como uma narrativa dessa natureza é provocadora. A peça consagrou, no teatro moderno, o procedimento do “teatro dentro do teatro”.
Devido à complexidade do enredo, entretanto, a montagem sofreu críticas de especialistas renomados. Tanto assim que Autran escreveu uma carta, hoje preservada no acervo do Instituto Moreira Salles, para defender o espetáculo.
A defesa é longa. Nela, ele explica, sem meias palavras, como um crítico de teatro deve agir. Ressalta que é imprescindível que goste de teatro e de ver espetáculos teatrais. Enfatiza também que deve procurar informar-se sobre quem é quem no espetáculo, qual o grau de experiência e cultura teatral dos profissionais envolvidos na produção, para não escrever bobagens.
E arremata com forte dose de ironia e sarcasmo. Depois de lembrar que a crítica havia pedido dois bons lugares e avisado que, se fossem ruins, talvez ficasse mal-humorada ao escrever, perguntou: “Você ficou mal-humorada porque não gostou do lugar ou porque foi sozinha?”
Essa era apenas uma das muitas provocações que a peça despertava. Pirandello não oferecia ao público uma história acomodada. Gostava de deslocar as certezas. Suas personagens parecem sempre perguntar quem somos, que papéis representamos e até que ponto conhecemos a nós mesmos.
Essa inquietação aparece também em seus romances. Em Um, nenhum e cem mil, talvez o mais aclamado deles, tudo começa com uma observação aparentemente banal a respeito do nariz do personagem principal. A partir daí, instala-se uma crise existencial. A discussão passa a ser sobre como ele se vê e como é visto pelos outros.
Em O falecido Mattia Pascal, o enredo também é curioso. O protagonista é dado como morto por engano. Depois desse episódio, tenta viver com uma nova identidade, como se pudesse fugir de si mesmo e se afastar da sociedade. Já A excluída merece ser mencionada por se tratar de seu primeiro romance. A obra faz críticas sociais à sua época a partir de um tema picante, o adultério, e ainda guarda marcas do naturalismo.
Pelo conjunto de sua produção literária e pela criativa renovação da arte dramática e cênica, Pirandello conquistou o Prêmio Nobel de Literatura de 1934.
Meus encontros casuais com ele, porém, não se restringiram à peça de Paulo Autran. Em viagem a Taormina, na Sicília, fiquei impressionado com as inúmeras referências ao escritor. Uma das principais avenidas dessa exuberante cidade leva o seu nome. Foi ali também que se encontrou com sua musa inspiradora, Marta Abba.
Pirandello é homenageado no festival internacional de literatura de Taormina. Nesse evento são discutidos os impactos de sua obra na literatura e no teatro moderno. Um dos pontos turísticos mais interessantes da cidade é o Belvedere di Via Pirandello, mirante que proporciona uma vista espetacular da Isola Bella e do Mar Jônico.
Cento e cinquenta e nove anos depois de nascer na Sicília, Luigi Pirandello continua influenciando gerações. Seu legado permanece vivo porque nos lembra que talvez ninguém seja apenas aquilo que imagina ser. Por isso, vale a pena celebrar esta data que trouxe ao mundo uma das mentes mais brilhantes das letras cênicas e teatrais. Siga pelo Instagram: @polito
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