
por Marcus Vinícius de Freitas
Publicado em 08/07/2026, às 08h00
A eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 certamente provocará o ritual conhecido. Falar-se-á da CBF, do treinador, da preparação, da falta de organização, da ausência de liderança, da decadência técnica, da influência excessiva do futebol europeu e da perda de uma identidade que, durante décadas, fez do Brasil sinônimo de beleza, criatividade e vitória. Algumas dessas críticas são justas. Outras pertencem apenas ao folclore que acompanha cada derrota nacional. Mas o ponto mais importante talvez esteja para além do campo.
O que mais entristece não é apenas a eliminação em si. O futebol é feito de vitórias e derrotas. Grandes seleções perdem, ciclos terminam, gerações envelhecem, adversários evoluem. O problema maior é perceber que o Brasil vem desperdiçando, há anos, um dos mais extraordinários ativos de projeção internacional já construídos por qualquer país: o futebol brasileiro como fonte de poder brando (soft power).
Poucas nações foram tão espontaneamente reconhecidas no mundo por algo positivo quanto o Brasil por meio do futebol. Antes que muitos estrangeiros conhecessem Rio de Janeiro, São Paulo, a Amazônia ou a complexidade de nossa economia, já conheciam Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Kaká e tantos outros. O futebol brasileiro atravessou fronteiras, idiomas, religiões e conflitos. Criou simpatia antes da diplomacia. Abriu portas antes dos acordos comerciais. Produziu admiração antes mesmo de o Brasil ter uma estratégia clara para ser admirado.
Lembro-me de uma viagem que fiz à Cisjordânia, anos atrás. Em meio a um ambiente marcado por tensões políticas e enormes dificuldades cotidianas, surpreendi-me ao ver palestinos torcendo pelo Brasil, com bandeiras, camisas e entusiasmo genuíno pela Seleção Canarinho. Aquela cena ficou gravada em minha memória. Era um reconhecimento internacional do Brasil que não dependia de embaixadas, de discursos oficiais ou de campanhas de imagem. Havia ali uma conexão afetiva, espontânea, quase universal. O Brasil era lembrado com alegria. E isso, para qualquer país, é uma forma poderosa de presença no mundo.
Há quem critique esse tipo de reconhecimento. Dizem que o Brasil não deveria ser conhecido pelo futebol, mas por sua ciência, tecnologia, indústria, universidades e capacidade de inovação. Evidentemente, seria desejável que o país fosse reconhecido por tudo isso. Mas essa crítica parte de uma falsa escolha. Nenhuma nação precisa abandonar uma fonte de prestígio para construir outra. Os Estados Unidos projetam poder por Hollywood, universidades, empresas de tecnologia e sua moeda. O Reino Unido faz isso por Shakespeare, BBC, Premier League e suas instituições. A Coreia do Sul transformou música, cinema e séries televisivas em instrumentos globais de influência. O Japão fez o mesmo com sua cultura popular, gastronomia, tecnologia e estética.
O Brasil, ao contrário, parece, muitas vezes, envergonhar-se de suas próprias vantagens. Trata como folclore aquilo que poderia ser uma estratégia. O futebol não é apenas entretenimento. É uma linguagem universal. É um dos poucos fenômenos capazes de criar identificação entre pessoas que não compartilham língua, religião, história ou sistema político. Em um mundo fragmentado, no qual as sociedades se comunicam cada vez menos e se enfrentam cada vez mais, o futebol ainda oferece uma gramática comum de emoção, pertencimento e admiração.
Esse descuido não se limita ao futebol. A língua portuguesa é outro exemplo de ativo extraordinário que o Brasil não valoriza como deveria. Com centenas de milhões de falantes espalhados por diferentes continentes, o português é uma das maiores línguas do mundo. É idioma de literatura, diplomacia, comércio, música, ciência, pensamento e identidade. Ainda assim, o Brasil raramente o trata como instrumento estratégico de projeção internacional. Portugal, apesar de sua dimensão territorial e demográfica muito menor, compreendeu melhor esse valor e projeta a língua através do trabalho admirável do Instituto Camões.
O Brasil possui vantagens raras. Tem uma cultura admirada, uma língua global, uma biodiversidade única, uma música reconhecida internacionalmente, uma gastronomia em expansão e uma sociedade que, apesar de seus problemas, ainda desperta simpatia em muitas partes do mundo. O problema não é a ausência de ativos. O problema é a ausência de estratégia.
Recuperar o futebol brasileiro não significa apenas voltar a vencer campeonatos. A derrota em campo é apenas o sintoma. A verdadeira perda tem sido esquecer que o Brasil ainda possui um patrimônio imaterial imenso — e que nenhum país sério desperdiça aquilo que o torna admirado.

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