
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 21/05/2025, às 08h00
A história das relações entre Ocidente e Oriente Asiático é uma arqueologia do medo. Desde que as hordas mongóis avançaram desde a Ásia Central até as estepes europeias no século XIII, uma neurose civilizacional cristalizou-se no imaginário europeu: o Yellow Peril (Perigo Amarelo) não foi inventado, mas desenterrado sempre que necessário. O que hoje se apresenta como “preocupação estratégica” com a China é a reencarnação desse fantasma, agora vestido em jargões geopolíticos e estatísticas econômicas. A matriz desse pânico remonta às caravanas romanas que traziam seda e inquietação. O Oriente sempre foi simultaneamente objeto de desejo e fonte de perigo — dualidade que o colonialismo do século XIX codificou em hierarquias raciais. A China, em particular, foi reduzida a um paradoxo: “bárbara” quando fechada em sua Grande Muralha, “ameaçadora” quando aberta ao comércio global. Hoje, repete-se o mesmo script: acusa-se Beijing de isolacionismo e expansionismo, conforme a conveniência retórica.
O temor contemporâneo à China é um espelho quebrado: reflete menos a realidade asiática do que as fraturas do próprio projeto ocidental. A China moderna perturba não por suas ações — comparativamente menos expansionistas que as potências atlânticas dos últimos quinhentos anos —, mas por sua existência como centro de poder que recusa o roteiro liberal. Ela expõe a falácia mais incômoda: a de que o “fim da história” foi adiado por civilizações que não leram ou implementaram Fukuyama. O sucesso asiático desafia os dogmas da modernidade ocidental e da racionalidade iluminista que, supostamente, deveriam garantir ao Ocidente a condução exclusiva do destino humano.
Essa desconfiança revela o racismo da modernidade. Japão, Coreia do Sul, Singapura e China são tidos como exceções, como anomalias que desafiam o cânone liberal, em vez de expressões legítimas de modelos alternativos de organização. Quando a Ásia prospera, questiona-se como: roubo de tecnologia? Manipulação cambial? Autoritarismo eficiente? Quando o Ocidente declina, culpa-se quem? Invariavelmente, a China. A lição é clara — só é aceitável o desenvolvimento que obedece ao manual escrito por Washington.
O medo da China, portanto, não nasce da China em si, mas da projeção que o Ocidente faz sobre ela, como se o gigante asiático representasse a materialização de um pesadelo ancestral. Trata-se menos de uma ameaça objetiva e mais de um desconforto simbólico. A China não ameaça pela força, mas pelo precedente: e se o capitalismo de Estado for mais eficaz que o neoliberalismo? E se a democracia liberal não for o único caminho para o desenvolvimento? A demonização de Beijing é, assim, um sintoma da angústia hegemônica — a inquietação de quem percebe que a “universalidade”, perspectiva e teologia ocidentais sempre foram apenas localismos impostos com pretensões imperiais.
A ironia trágica é que, enquanto a Europa incendiou o mundo em guerras coloniais, cruzadas e campanhas de dominação, o continente asiático desenvolveu cosmologias políticas fundadas na harmonia, na continuidade e na moderação. Mas a história é escrita pelos vencedores. E, por isso, persiste a caricatura do “temor amarelo”, instrumento útil para dissimular uma verdade indigesta: o Ocidente não teme a China por ela ser agressiva, mas por ser bem-sucedida. Não teme a Ásia por sua violência, mas por sua resiliência.
Ao perpetuar essa narrativa, a mídia — muitas vezes capturada por interesses oligárquicos e servindo a estruturas geopolíticas consolidadas — cumpre um papel fundamental na manutenção de estigmas e distorções. Alimenta o imaginário coletivo com imagens de ameaça, ao invés de promover uma compreensão mais ampla da diversidade civilizacional do planeta. A ascensão da China, portanto, não é apenas um fenômeno econômico: é uma provocação ontológica ao monopólio simbólico do Ocidente. Além disso, a negligência acadêmica — mais por desídia do que por falta de dados — tem contribuído para a perpetuação de uma narrativa distorcida sobre a Ásia, em especial sobre a China. Recordo-me vividamente de duas palestras a que assisti em São Paulo no início deste ano, ministradas por renomados economistas, nas quais pregavam o iminente colapso econômico chinês e exaltavam a suposta genialidade estratégica do presidente recém-eleito dos Estados Unidos, em sua política confrontacional ao país asiático. Tal perspectiva, além de superficial, ignorava as complexidades estruturais da economia global. O chamado “tarifaço” de Trump — uma medida equivocada e contraproducente, felizmente revertida a tempo — tinha o potencial de transformar os Estados Unidos da América na sétima falência de seu idealizador, o empresário Donald Trump.
Romper essa lógica binária não exige apenas ajustes diplomáticos, mas uma profunda descolonização da imaginação geopolítica. Significa reconhecer que há múltiplas formas de prosperar, organizar a vida coletiva e projetar o futuro — e que nenhuma civilização detém o monopólio da razão, da moral ou da história. Longe de qualquer fundamento, o “perigo amarelo” é fruto do medo ocidental. Vale relembrar um ensinamento: “Na pluralidade da criação, reside a assinatura do Criador.”

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